volta

Eu voltei

E eis que dez meses depois, eu voltei pra casa.

Foram dez meses de viagens intermináveis de ônibus, de medo de passar na fronteira de um país para o outro, e de carimbos no passaporte. Dez meses de diálogos com pessoas que não falavam a mesma língua que eu, de fingir que entendia o inglês dos asiáticos, e de aprender palavras em outros idiomas que duravam no máximo uma semana no meu cérebro. Dez meses de comida sem tempero, comida exótica, e comida deliciosa. Dez meses de muitas aventuras, muitos novos amigos, e nenhum arrependimento.

OK, talvez esse último item seja um exagero, claro que tiveram arrependimentos. Me arrependi de pedir aquele prato super apimentado na Tailândia que eu nem consegui terminar de comer. Me arrependi de não ter feito aquele trekking na Malásia por medo do tempo não firmar. Me arrependi de não ter comprado aquele livro em Praga porque achei que não ia ter lugar na mala.

Mas ao contrário do que muita gente achou, não me arrependi de ter chutado o balde e caído no mundo. Mesmo tendo voltado um pouquinho antes do que eu havia planejado inicialmente, foi tudo (meio que) friamente calculado.

E voltei e nada mudou. Minha irmã continua bagunçando a casa, meu pai continua incapaz de ligar o DVD sozinho, e minha mãe continua cozinhando maravilhosamente. As rolinhas continuam invadindo a casa para comer a ração do cachorro, e ainda é preciso fazer uma forcinha pra direita na hora de fechar a porta do armário.

Mas tudo isso não era mais suficiente, eu precisava de um pouco mais. Um pouco mais de aventura, de desconhecido, de desafio. E foi por isso que eu resolvi que ainda não era hora de voltar de vez. Era o momento apenas de rever os amigos e a família, fazer um carinho no gato, tirar a barriga da miséria com as comidinhas de mamãe, e ser a maluca que vai embora de novo.

Agora estou em Pequim onde, se tudo continuar dando certo, devo ficar por pelo menos um ano. Eu tenho outra cama, outra casa, outra rotina. Por enquanto ela me apetece, não sei quanto tempo vou levar para me cansar dela, mas quando até uma uma ao supermercado vira uma aventura, fica difícil imaginar que eu irei me cansar dessa vida num futuro próximo.

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