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Os amigos e eu

Se eu disser que eu gosto muito de Friends, estarei subestimando o tamanho do meu amor por este programa de TV. Toda vez que alguém elogia o meu inglês, eu assumo que a culpa é de Friends, e quando eu finalmente tive condições de fazer a minha primeira viagem internacional da vida, eu fiz as malas e parti pra Nova York.

As tardes da minha adolescência nas quais eu fiquei assistindo às reprises que passavam ad infinitum na TV por assinatura, fizeram não só com que eu praticasse as minhas habilidades linguísticas e desenvolvesse esse sonho de conhecer a Big Apple, mas também serviram para que eu me sentisse parte do grupo e me identificasse com cada um dos personagens, mesmo que mais com uns do que com outros.

A Phoebe era a pessoa que eu queria ser. Apesar do passado conturbado e da infância difícil, ela tem uma vida adulta ótima! Ela tem um emprego pouco convencional que a faz feliz, na maior parte do tempo não divide apartamento com ninguém, usa seus talentos artísticos para se divertir, tem o guarda-roupa mais legal, tem os namorados mais bacanas/estranhos (gosto não se discute amigos!) e ainda acaba a história com o Paul Rudd! Mas o grande ponto de identificação comigo era ser a amiga que mora longe. Só quem é a pessoa que não mora no mesmo bairro do restante do clã sabe como é isso.

Eu sempre me identifiquei muito com a Mônica. Problemas com os pais aparte, eu também sofri bullying quando era criança por causa do peso (só que era por ser magra demais), eu também tenho uma tendência excessiva à limpeza e a organização, e eu também enfrento problemas com o meu cabelo em ambientes de umidade excessiva. Só me falta o talento culinário (quem sabe um dia eu chego lá?).

Confesso que nunca gostei muito da Rachel. Inclusive, acho que parte do ódio que eu desenvolvi pela personagem acabou contaminando um pouco a minha impressão sobre a Jennifer Aniston. Mesmo com aquela história toda de superação e descoberta da independência, eu só consigo simpatizar com ela naquele episódio em que a personagem adota um gato Sphynx e sofre bullying por isso, e mesmo assim, ela joga a minha simpatia no lixo ao se desfazer do gato por causa da pressão social.

Por mais que eu odeie admitir, também tenho um pouco de Ross em mim. Nada da coisa do ciúme doentio (aliás, o casal Ross+Rachel me irritava desde o início), mas a tendência a se estender no discurso sobre um assunto cientifico que não interessa a mais ninguém eu tenho um pouco. Aproveito para pedir desculpas a todos os amigos que me aturaram durante a faculdade de Biologia, especialmente durante a fase da caneca de plástico que me acompanhava para todos os lugares.

Por acaso existe alguém no universo que não quisesse ser amigo do Joey? O cara é bacana, engraçado, cheio dos contatos televisivos, curte animais, registra todos os momentos em viagens, é seguro o bastante sobre a sua sexualidade para usar batom azul e tirar sonecas de conchinha com amigos homens, se esforça para aturar a namorada do melhor amigo mesmo não suportando ela. É tanta qualidade que a gente até releva a coisa dele não dividir comida.

E aí tem o Chandler. A pessoa que um monte de gente acha que é gay só porquê ele não está constantemente acompanhado. A pessoa que decide mudar de carreira. A pessoa que passa a vida fazendo piada como forma de esconder a sua indisponibilidade emocional. Qualquer semelhança com essa que vos fala é mera coincidência.

E tudo isso foi só pra dizer que, sabe como é, eu sou meio Chandler. Tive que dar essa volta toda pra dizer que ter um blog é mais difícil do que parece, principalmente pra mim que prefiro contar 50 piadas do que falar de algo pessoal. Não acho que o Chandler era tipo de pessoa que teria um blog contando sobre a vida dele, e ainda assim, estou aqui. Talvez a gente não tenha tanto em comum afinal.

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De porrete na mão

Pode chamar de preguiça. Pode chamar de procrastinação excessiva. Pode até chamar de depressão pós-viagem. Não importa como você chame, como é possível uma pessoa ter viajado durante 10 meses, visitado 16 países, perdido as contas de quantas pessoas conheceu, e mesmo assim estar a 3 meses sem escrever uma linha se quer?

Eu poderia culpar as últimas semanas intensas da viagem, as séries que precisavam ser colocadas em dia, a saudade da minha cama, os filmes do Oscar que ainda não haviam sido assistidos, o gato recém-atropelado que precisava de atenção, a arte de transformar aquele “vamos marcar” em realmente encontrar as pessoas que eu não vejo a quase um ano, e até a árdua tarefa que é tentar arranjar um emprego de novo.

Mas, ao usar o tempo livre que eu finjo que não tenho para navegar pelo Tumblr, eis que eu me deparo com uma citação de um dos meus autores favoritos que fez com que eu enfrentasse a minha falta de vergonha na cara:

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Ou, em claro e bom português, “Você não pode esperar por inspiração. Você tem que ir atrás dela com um porrete”.

É verdade que eu não tenho muita inspiração, mas eu tenho um blog para ser atualizado. Então, de porrete imaginário na mão, lá vou eu vasculhar o celular cheio de anotações quase indecifráveis que variam de algumas palavras soltas à incontáveis frases desconexas, torcendo para que essas notinhas misteriosas se transformem em histórias que valham a pena serem contadas.

É bem provável que eu não tenha tantos episódios interessantes sobre a estrada para contar quanto o próprio Jack London, mas não me custa tentar. Antes isso que sonhar com um escritor furioso como um lobo me perseguindo com um porrete.