Minha família louca

Na churrascaria

Toda família tem suas peculiaridades, e a minha não é diferente. Por exemplo, minha irmã não come carne, mas isso não nos impede de ter longos almoços de domingo em churrascarias.

A situação já foi bem mais dramática. Quando nós éramos crianças teve um garçom que ficou tão incomodado com o fato de a minha irmã não aceitar nada do que era oferecido e de haver apenas arroz, farofa e batata frita em seu prato, que perguntou se ela não gostaria que ele trouxesse um ovo frito.

Hoje em dia as coisas estão bem menos restritas na dieta da minha irmã, mas o fato de ela comer a sua cota do rodízio apenas em coxas e corações de frango continua a gerar os olhares mais estranhos nos garçons. Pelo menos ela faz a alegria da classe menos favorecida, que ainda não tem gabarito para empunhar um espeto de picanha, ao aceitar, por exemplo, um pouco do suflê de bacalhau, intacto até então.

Eu sinto ela deve estar preparando uma vingança. Um dia, ela vai nos convidar para almoçar fora e vai levar a gente num restaurante de comida japonesa, e ainda vai poder dizer com toda propriedade que a vingança é um prato que se como frio (e, às vezes, cru).

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Os japoneses e os biscoitos

Descobri que meu pai entende de ciência como ninguém. Se soubesse disso antes tinha chamado ele para dar uma luz em todos os experimentos do laboratório onde eu estagiei que acabaram dando errado (acredite, foram muitos), mas infelizmente ele só me revelou esse talento ontem a noite enquanto jantávamos e assistíamos ao Jornal Nacional.

Estavam mostrando uma matéria sobre pesquisadores japoneses que inventaram um óculos capaz de aumentar o tamanho da comida e, com isso, diminuir o apetite. No meio da explicação eles descreveram o experimento: no primeiro dia deram biscoitos virtualmente reduzidos à cobaia e ele comeu 13 biscoitos; no segundo dia o rapaz via os biscoitos em seu tamanho normal e acabou comendo 11 deles até se saciar; já no último dia os biscoitos foram aumentados e o japonês só conseguiu comer 7 biscoitos. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que quando enxergamos a comida em tamanho maior acabamos comendo menos. Mas a conclusão do meu pai foi um pouco diferente:

_ Claro que ele só comeu 7! Ele deve ter ficado enjoado de comer o tal biscoito, isso sim! Garanto que no quarto dia ele ia estar vomitando só de ver os biscoitos!

Será que os pesquisadores japoneses consideraram essa variável antes de publicar o artigo? Sei não…

Enfim, a arquiteta

Hoje estávamos eu e minha família vendo televisão quando passou uma cena de uma menina dando um chilique por conta da roupa que ela usaria para ir a uma festa. Na mesma hora minha irmã acionou o modo defensivo e foi logo falando:

_ Cruzes! Nem eu chego a isso! Sou muito menos histérica com roupa!

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, minha mãe não se conteve com a afirmação absurda da Heloá:

_ Como é que é? Você é exatamente assim! Hoje mesmo você me perguntou umas três vezes antes de sair para a faculdade se o seu look não estava muito monocromático!

_ Ah… mas hoje não conta! Eu estava com problemas de auto-estima porque sabia que ia encontrar a Fulana na faculdade. E sabe como ela é né? Tem gente que quase cai da escada rolante de ficar olhando para ela! _ se explicou minha irmã.

_ Mas é por isso que eu só andava com a Ciclana, _ rebateu minha progenitora_ mas você não tem amiga feia, né? Aí fica difícil sobressair…

_ Eu até tinha, mas a Beltrana não quer mais saber de mim…

Depois dessa eu deixei o recinto e corri para ligar o computador para não esquecer de nenhum detalhe desse diálogo no mínimo esdrúxulo. Pelo menos agora todos serão capazes de entender quem foi a responsável pela construção da auto-estima da minha irmã, e  assim como eu, também se perguntar o que foi que deu errado enquanto a minha estava em formação, considerando que a arquiteta foi a mesma.

Tia animada

A nove anos atrás eu fui ao Rock in Rio. Tudo bem que eu fui no dia em que tocaram Britney Spears e Sandy & Junior, mas o que importa é que eu fui ao Rock in Rio. Como na ocasião eu tinha apenas 14 aninhos, o principal fator que condicionou minha ida ao evento foi minha mãe ter ido comigo. O bom disso foi que ela ficou tão traumatizada com a muvuca, o calor e a poeira que subiu durante a infame “Vamo pulá” (que quase nos matou sufocadas e deixou as melequinhas do meu nariz pretas por quase uma semana), que jurou que nunca mais iria numa furada dessas na vida.

Logicamente a minha acompanhante não foi a única mãe presente no Rock in Rio. Minhas primas que tem mais ou menos a mesma idade que eu também foram acompanhadas da minha tia. A pequena diferença entre a minha mamãe e essa tia é que a última adorou! Gostou tanto que repetiu a dose nos dois Coca-Cola Vibezones que se seguiram e, adivinha só, já está com ingresso comprado para o Rock in Rio do ano que vem!

Ela só está precisando treinar um pouco o nome das atrações. Ela disse toda animada para as fIlhas:

_ Eu vou ver o Goldisplay!

_ Não seria Coldplay não?_ pergunta uma das filhas.

_ Até lá dá tempo de eu aprender até a letra das músicas! Por enquanto, é só eu dizer que vou no Skank!

Garanto que até setembro ela vai estar mais fluente em Coldplay do que eu, enquanto minha mamãe vai assistir tudo do conforto do seu lar e tentar me achar no meio da multidão, como ela sempre faz, para depois jurar que me viu.

Programa de índio

Junte uma família de bobeira num domingo a noite e um pai de bom humor e com fome, o que dá? Uma visita à pizzaria, ora essa! Acontece que minha mãe saiu de lá com cara de quem comeu e não gostou (literalmente), tudo porque ela é chegada em pizza de massa grossa, mas, para a minha felicidade, o estabelecimento onde nós jantamos naquela noite serve pizzas de massa super fina.

Ela passou todo o caminho de volta pra casa reclamando, mas ninguém poderia imaginar onde a conversa iria parar…

_ Hoje não porque já está tarde, mas amanhã mesmo vou fazer uma pizza de verdade pra mim comer!

_ “Mim” não come! É “pra eu comer”!_ corrigiu minha irmã.

_ Mas “mim” como sim! “Mim” é índio!

_ E quem disse que índio fala assim? Índio fala Tupi-Guarani!

Ê, ê, ê! Índio quer apito, se não der, nem te conto...

Ê, ê, ê! Índio quer apito, se não der, nem te conto...

Por mais sem pé nem cabeça que isso seja, acabei me lembrando de outra coisa: Porque quando a gente se refere a um programa furada total, chamamos de “programa de índio”? Vai dizer que índio além de falar errado também não se diverte? E aquele monte de dancinhas ao redor da fogueira? Se não fosse super divertido acho que eles já tinham parado com isso a um tempinho…

Vendedor pirata

O marido da minha prima outro dia me contou que estava voltando para casa depois de um dia de trabalho e avistou na calçada uma lona extendida no chão sobre a qual estavam vários DVDs piratas. Ele chegou, deu uma olhadinha, e perguntou ao rapaz que estava de pé ao lado dele:

_ Quanto é?

_ Um é R$5,00 e três é R$10,00.

Ele escolheu os filmes que queria, pagou ao rapaz e saiu andando, feliz da vida com sua compra. Quando estava parado esperando o sinal fechar para que ele atravessasse a rua, viu o rapaz saindo de fininho e um outro homem que acabara de chegar fazendo a propaganda do negócio. Ele, que não é bobo nem nada, também saiu andando como se nada tivesse acontecido, que culpa ele tinha se pagou à pessoa errada?

Agora não é só o DVD que é pirata, às vezes nem o vendedor é original.

A Copa na família Bento

As pessoas que conhecem a minha família sabem que eu sou, provavelmente, um dos integrantes mais sem graça dela. Todo mundo é metido a comediante e ás vezes eles me envergonham. Mas em época de Copa do mundo, até que as piadinhas vem a calhar e nós poderiamos até vender algumas para o Zorra Total (vamos combinar que eles estão precisando de toda ajuda que conseguirem).

Acontece que a família se reuniu para assistir ao jogo da nossa seleção contra a Costa do Marfim, aí não prestou, né?

“Já começou a Copa da França!”

Minha prima ligeiramente perdida no tempo

“É tudo filho de pai José!”

Meu tio noveleiro sobre o time da Costa do Marfim

“O Eulano não tá jogando?”

Minha prima sobre a escalação

“Ih, a Comlurb mandou o pessoal todo pra assistir a Copa!”

Meu tio sobre a torcida da Costa do Marfin

E, acredite ou não, foi minha vó que ganhou o bolão de quem iria fazer o primeiro gol do jogo!

Pais (os seus e os meus também) hoje em dia

Depois que você passa dos dezoito aninhos de idade seus pais não começam só a te tratar diferente, eles também começam a se comportar de maneira bem diferente de que você se lembrava quando criança. Afinal, ninguém precisa mais correr atrás de criança para impedir que ela vá para a escada ou morda o cachorro,  então papais e mamães começam realmente a se divertir nas festas, e diversão quase sempre envolve bebida alcoólica.

Numa das últimas festinhas de família (ou quase isso) tive um bom exemplo desse tipo de situação. Uma das tias, que praticamente não bebe, estava animadinha com o vinho e todos começaram a sacanear meu tio sobre a noite que eles teriam:

_ É hoje, eihn Fulano!

_ É… É hoje que ela me vomita todinho…

Essa conversa lá ocorreria se eu e meus primos estivessemos na faixa dos 7 anos? Prefiro acreditar que não. Alguém se candidata para pagar minha terapia?

Jogos de tabuleiro rock!

Está entediado? Sem nada para fazer? Que tal uma partidinha de banco Imobiliário? Imagem e Ação? Perfil, talvez?

Adoro jogos de tabuleiro porque eles conseguem despertar o que há de pior no ser humano. Os adjetivos proferidos são de canalha pra baixo. A integridade é jogada pela janela. Pessoas de boa índole são capazes de afanar dinheiro do amiguinho ao lado por baixo da mesa (não pense que eu não vi, senhor Xuxu). O objetivo da sua vida passa a ser a ruína do seu próprio irmão!

Outro dia estava me preparando para jogar Banco Imobiliário com a minha família emprestada, quando minha tia, ao ver a cena, falou:

_ Nada de agressão física, eihn!

_ Mas moral pode, né mãe?_ disse minha pseudo-prima.

Lá o nível é assim! É por isso que, por questões de segurança, estamos proibidos de jogar sobre mesas de vidro e perto de objetos cortantes ou que possam ser arremessados com facilidade. 

Que fique claro que, no vídeo, o jogo ainda estava o início e a cilividade ainda estava num nível aceitável.

Detetive é outro jogo com potencial para o desastre. As afirmações vêm acompanhadas de dedo na cara e soco na mesa:

_ Foi o Coronel Mostarda com o galho de goiabeira na varanda!

E ai de quem disser o contrário!

Estou pensando em me dar de presente a versão mais nova do Perfil e aproveito logo para desafiar qualquer um que tenha um polegar opositor. Vou logo avisando que não chego ao cúmulo de descobrir que a pessoa em questão é o Oscar depois apenas da dica “comi 66 bombons”, mas sou boa nisso. Pelo menos melhor que no Banco Imobiliário, afinal, faço Biologia e não sou boa em fazer contas.

Direção cautelosa

Meu pai contou que outro dia levou um grande susto aqui mesmo na minha rua. Ele estava dirigindo quando de repente um criança (!), de uns 3 ou 4 anos (!) deu uma fechada no carro dele com um velocipede (!!!). A que velocidade meu papi andava? Porque eu duvido que a criança em questão fosse filho do Super Homem, mordida por uma aranha radioativa e muito menos teve seu veículo “pimpado” na mesma oficina que o Batman.

Depois eu que ando devagar, vê se pode?