Conversas bizarras

A Fulana

Eu não sei quem é a Fulana, mas com certeza quero conhecê-la.

Um professor começou a falar sobre os alunos de uma de suas turmas, e ao descrever uma certa aluna, disse que mesmo após tantos meses de aulas ainda não tinha conseguido entender o je ne sais quoi da tal Fulana: “Ela é amiga de todo mundo! Dos gays, das lésbicas, dos héteros! Tá todo mundo sempre em volta da Fulana!”

A minha reação ao ouvir isso? “Olha, pelo que você está falando, a Fulana me parece uma pessoa ótima, uma pessoa de coração aberto, uma pessoa que aceita as outras como elas são sem preconceitos. Quer saber, eu também quero ser amiga da Fulana!”.

Minha declaração causou risos, mas eu não entendi bem o porquê. Como uma pessoa tão tolerante e agradável como a Fulana pode ser percebida com desconfiança? Como uma personalidade dessas pode ser comentada em tom de deboche? Como esse tipo de comportamento pode ser tido como exceção e não regra?

O mundo precisa de mais gente como você, Fulana! E eu sei que a sua oferta de amizades deve ser grande, mas se houver alguma vaga de amiga sobrando, estamos aqui para isso!

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A maluca da moeda

O tempo passa, as estações mudam, mas se há uma coisa que não muda na minha vida é a capacidade que eu tenho de atrair maluco. Sabe a cidadã que entra no ônibus ouvindo música (com fones de ouvido, pelo menos), cantando junto e fazendo caras e bocas para transmitir emoção? Senta do meu lado. O cara que perde o próprio carro no estacionamento do shopping? É da minha família. A criatura que liga para o número de telefone errado e teima que o errado é você que atendeu? Me liga quase toda semana.

Último exemplo dessa minha habilidade fenomenal? Estava andando calmamente a noite pela rua quase deserta saindo do trabalho. A moça que andava alguns metros a minha frente deixou uma moeda cair no chão e ao pega-la, achou que me devia alguma satisfação dizendo “Nossa, é muito chato essas moedas que ficam caindo no chão.” Fiz cara de quem entendia a situação e continuei meu caminho, mas ela, que também continuou caminhando, agora ao meu lado, resolveu emendar com “Já perdi R$20,00 na rua, mas uma moça achou, aí eu paguei um cachorro quente e uma Coca-Cola pra ela.”

Inocentemente eu achei que se parasse de olhar para ela e passasse a olhar para a frente, ela me deixaria em paz, mas ela continuou: “Cheirosa essa pipoca! Eu adoro pipoca, mas me dá uma azia terrível… Tá vindo do trabalho?” Oi? Ai socorro, agora ela quer interagir… Para não deixar a pobre maluca no vácuo completo, me limitei a balançar a cabeça em afirmação, mas antes mesmo que eu começasse a fazer o gesto ela prosseguiu: “Eu trabalho no posto de gasolina lá no fim da rua, mas não gosto de andar na rua muito tarde porque é perigoso. Eu moro na Barra da Guaratiba, mas meu namorado e eu morávamos… É só namorado, eu sou divorciada, não deu certo, sabe?”

Então, para o meu alívio, ela disse que era o ônibus dela e entrou correndo. Ufa! Até agora estou meio atordoada com a quantidade de informações que eu recebi aquele dia. Ainda bem que a a rua só tinha uns 500 metros, se fosse um pouco mais eu teria sabido até a cor da calcinha da minha amiga-que-não-gosta-quando-a-moeda-cai-no-chão.

Mamãe é sutil

Aqui em casa agora estamos com mania de assistir ao GNT. Não me pergunte porque, não é algo que sempre fizemos, mas ultimamente a gente zapeia para cá e para lá e acaba sempre parando no 41. Hoje, por exemplo, estávamos assistindo ao programa “Chuva de Arroz”, um programa capaz de distorcer as expectativas de qualquer um no quesito matrimônio, tanto que depois de ver três depoimentos com pedidos de casamento internacionais eu tive que falar:

_ Vem cá, para participar desse programa tem que ter sido pedida em casamento em outro país, por acaso?

_Acho que sim. Aliás, eu vou ficar muito decepcionada se eu for pedida em casamento no Brasil. _disse minha irmã.

Minha mãe não se conteve ao ouvir isso e foi logo dizendo:

_ Você tem é que agradecer se for pedida em casamento. Aliás, as duas! Estão as duas encalhadas aí!

E assim mamãe encerra o feriado com a sutileza de um elefante numa loja de cristais! Valeu mami! Sempre levantando nossa auto-estima! 

Os japoneses e os biscoitos

Descobri que meu pai entende de ciência como ninguém. Se soubesse disso antes tinha chamado ele para dar uma luz em todos os experimentos do laboratório onde eu estagiei que acabaram dando errado (acredite, foram muitos), mas infelizmente ele só me revelou esse talento ontem a noite enquanto jantávamos e assistíamos ao Jornal Nacional.

Estavam mostrando uma matéria sobre pesquisadores japoneses que inventaram um óculos capaz de aumentar o tamanho da comida e, com isso, diminuir o apetite. No meio da explicação eles descreveram o experimento: no primeiro dia deram biscoitos virtualmente reduzidos à cobaia e ele comeu 13 biscoitos; no segundo dia o rapaz via os biscoitos em seu tamanho normal e acabou comendo 11 deles até se saciar; já no último dia os biscoitos foram aumentados e o japonês só conseguiu comer 7 biscoitos. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que quando enxergamos a comida em tamanho maior acabamos comendo menos. Mas a conclusão do meu pai foi um pouco diferente:

_ Claro que ele só comeu 7! Ele deve ter ficado enjoado de comer o tal biscoito, isso sim! Garanto que no quarto dia ele ia estar vomitando só de ver os biscoitos!

Será que os pesquisadores japoneses consideraram essa variável antes de publicar o artigo? Sei não…

Pensando na genética

Uma coisa meio chata de ser a amiga eternamente encalhada solteira convicta do grupo é que quando alguém termina um relacionamento ou briga com o namorado e vem desabafar comigo, eu fico meio sem saber o que dizer, e se tento ajudar ainda corro o risco de deixar a situação pior ainda.

Outro dia, uma amiga de longa data estava me contando sobre o termino do namoro dela que já durava anos, entre muitas algumas idas e vindas. Segundo o seu relato, a relação já estava mesmo desgastada, ele queria casar enquanto ela queria focar nos estudos e a decisão mutua foi que cada um seguisse seu caminho. Eis que minha amiga profere então a afirmação surpreendente:

_ O que me deixa mais triste agora que o pior já passou é pensar nos filhos lindos que a gente podia ter tido juntos, sabe? Imagina só? Umas crianças muito loirinhas de olhos claros… Onde eu vou arranjar outro pai para fazer uns filhos tão bonitos assim? Tem que pensar na genética, né?

Diante disso tudo eu, que boa amiga sou, tratei de concordar: _ Você está certa! Vai ter que procurar muito bem mesmo. Afinal, pra quê botar mais uma criança com problemas de auto-estima no mundo, né?

Não sei se ajudei, mas acho que pelo menos não piorei. Acho. E depois ainda dizem que eu sou insensível…

Enfim, a arquiteta

Hoje estávamos eu e minha família vendo televisão quando passou uma cena de uma menina dando um chilique por conta da roupa que ela usaria para ir a uma festa. Na mesma hora minha irmã acionou o modo defensivo e foi logo falando:

_ Cruzes! Nem eu chego a isso! Sou muito menos histérica com roupa!

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, minha mãe não se conteve com a afirmação absurda da Heloá:

_ Como é que é? Você é exatamente assim! Hoje mesmo você me perguntou umas três vezes antes de sair para a faculdade se o seu look não estava muito monocromático!

_ Ah… mas hoje não conta! Eu estava com problemas de auto-estima porque sabia que ia encontrar a Fulana na faculdade. E sabe como ela é né? Tem gente que quase cai da escada rolante de ficar olhando para ela! _ se explicou minha irmã.

_ Mas é por isso que eu só andava com a Ciclana, _ rebateu minha progenitora_ mas você não tem amiga feia, né? Aí fica difícil sobressair…

_ Eu até tinha, mas a Beltrana não quer mais saber de mim…

Depois dessa eu deixei o recinto e corri para ligar o computador para não esquecer de nenhum detalhe desse diálogo no mínimo esdrúxulo. Pelo menos agora todos serão capazes de entender quem foi a responsável pela construção da auto-estima da minha irmã, e  assim como eu, também se perguntar o que foi que deu errado enquanto a minha estava em formação, considerando que a arquiteta foi a mesma.

O bem estar da tia

Não, eu não sofri uma lavagem cerebral recentemente e eu continuo não sendo a maior fã do ecossistema praia, mas eu aproveitei o finzinho das minhas férias para passar uns dias na Ilha Grande à base de sombra, água fresca e caminhadas cruéis.

Durante uma das trilhas que consistia em subir e descer um morro para chegar na praia mais famosa da região, minha mamãe me surpreendeu mantendo um ritmo constante e sem dar piripaque nenhum, mas nós passamos por um grupo de uma mãe um pouco mais velha que a minha, acompanhada pelos filhos e sobrinhos, que passou o tempo todo falando:

_ Vai mais devagar, gente! Assim eu não posso acompanhar! O moço do “Bem Estar” (aquele programa matinal da Globo) disse que tem que fazer uma conta com a idade da gente para saber o número máximo de batimentos cardíacos que a gente pode atingir e eu já estou no limite!

E um dos sobrinhos sabiamente respondeu:

_ E você acredita no cara do “Bem Estar”, tia? Ele é gordo! Que moral ele tem? E ainda fica mandando os outros emagrecerem!

Fernando Rocha, o apresentador gordinho sem moral em questão

Vai, gente, ele nem é tão gordinho assim. O que eu não consegui entender, nem ninguém que estava ali por perto naquele momento, é como a tia realizou a façanha de assistir ao “Bem Estar”! Acho que ela deve ser a única pessoa impedindo que o programa marque um traço de Ibope.

O gosto da maldade

Eu não sou uma grande conhecedora de bebidas alcoólicas. Tudo que eu sei é que eu odeio fermentados e só tolero destilados diluídos ao máximo em suquinhos muito doces. Eu nunca experimentei Campari e tudo que eu sabia até semana passada sobre a bebida era que ela é vermelha. Mas depois do depoimento de um amigo meu, acho que nunca irei me arriscar a tentar:

_ Aquele troço é horrível! Se a maldade tem um gosto, é o gosto do tal do Campari, é por isso que no comercial fica um jogando a bebida no outro, porque ninguém aguenta beber!

Campari

Jessica Alba fazendo a phyna e se desfazendo do drink de fininho

Então já sabe, se você ver alguém na balada com um copo de Campari na mão mantenha a distância, as chances são altas de que na hora que essa pessoa for se desfazer da bebida você acabe sendo atingido.

A verdadeira culpada pela morte da Amy

Eu tenho plena noção que dou valor a coisa que as pessoas ao meu redor não vêem sentido. Mas não deu para conter o meu espanto quando ontem, enquanto eu estava num equivalente a um conselho de classe de curso de inglês, me enviaram uma mensagem dizendo que a Amy Winehouse tinha morrido. Uma notícia importante dessas foi obviamente compartilhada com as outras seis pessoas que estavam na sala, que obviamente não me deram a mínima atenção. Gente que se preocupa com coisas mais sérias, tipo a fome na África, sabe como é…

Enfim, como não tinha ninguém para conversar sobre o assunto no recinto, voltei minha atenção para o diálogo que se desenrolava via SMS. Meu problema maior não era ela ter morrido, não era surpresa para ninguém que isso não iria demorar a acontecer, a questão é que eu fiquei de pão-durisse em fevereiro e não fui no show! Eis então que minha amiga, muito sagaz chega a incrível constatação:

_ Eu fui no show do Oasis, a banda acabou. Fui no show da Amy, ela morreu. Alguém tem notícias do Paul McCartney?

Já avisei que se o Macca espirrar a culpa é dela! E aliás, já estou elaborando a lista de shows nacionais e internacionais que ela está proibida de frequentar.

Tudo a ver

Quando a pessoa está a fim de alguém, passa a ver coisa onde não tem e a exagerar cada detalhe como se fosse a coisa mais importante do mundo, certo? Até aí nenhuma novidade. Outro dia minha irmã estava conversando com uma de suas novas amigas da faculdade (para quem estava sentindo falta das histórias mirabolantes da minha irmã e seus amigos peculiares, para dizer o mínimo, aviso que esta nova leva de personagens promete), e a tal menina estava mostrando a minha irmã as fotos do Orkut do tal Fulaninho de quem ela está a fim. Eis então que aparece uma foto do cidadão segurando um espeto de churrasco, com vários comentários dos amigos que o cara mandava muito bem na arte do “barbecue”. Aí a amiga da minha irmã diz, toda animada:

_ Olha! Ele ama churrasco! Eu também! A gente tem tanta coisa em comum!

E minha irmã se sentiu na obrigação de responder:

_ Realmente! Porque é tão difícil duas pessoas gostarem justo de churrasco, né…

Eu não sei vocês, mas eu estou aguardando ansiosamente pelos próximos capítulos desta linda história de amor que tem tudo para dar certo.