Constatações

Os amigos e eu

Se eu disser que eu gosto muito de Friends, estarei subestimando o tamanho do meu amor por este programa de TV. Toda vez que alguém elogia o meu inglês, eu assumo que a culpa é de Friends, e quando eu finalmente tive condições de fazer a minha primeira viagem internacional da vida, eu fiz as malas e parti pra Nova York.

As tardes da minha adolescência nas quais eu fiquei assistindo às reprises que passavam ad infinitum na TV por assinatura, fizeram não só com que eu praticasse as minhas habilidades linguísticas e desenvolvesse esse sonho de conhecer a Big Apple, mas também serviram para que eu me sentisse parte do grupo e me identificasse com cada um dos personagens, mesmo que mais com uns do que com outros.

A Phoebe era a pessoa que eu queria ser. Apesar do passado conturbado e da infância difícil, ela tem uma vida adulta ótima! Ela tem um emprego pouco convencional que a faz feliz, na maior parte do tempo não divide apartamento com ninguém, usa seus talentos artísticos para se divertir, tem o guarda-roupa mais legal, tem os namorados mais bacanas/estranhos (gosto não se discute amigos!) e ainda acaba a história com o Paul Rudd! Mas o grande ponto de identificação comigo era ser a amiga que mora longe. Só quem é a pessoa que não mora no mesmo bairro do restante do clã sabe como é isso.

Eu sempre me identifiquei muito com a Mônica. Problemas com os pais aparte, eu também sofri bullying quando era criança por causa do peso (só que era por ser magra demais), eu também tenho uma tendência excessiva à limpeza e a organização, e eu também enfrento problemas com o meu cabelo em ambientes de umidade excessiva. Só me falta o talento culinário (quem sabe um dia eu chego lá?).

Confesso que nunca gostei muito da Rachel. Inclusive, acho que parte do ódio que eu desenvolvi pela personagem acabou contaminando um pouco a minha impressão sobre a Jennifer Aniston. Mesmo com aquela história toda de superação e descoberta da independência, eu só consigo simpatizar com ela naquele episódio em que a personagem adota um gato Sphynx e sofre bullying por isso, e mesmo assim, ela joga a minha simpatia no lixo ao se desfazer do gato por causa da pressão social.

Por mais que eu odeie admitir, também tenho um pouco de Ross em mim. Nada da coisa do ciúme doentio (aliás, o casal Ross+Rachel me irritava desde o início), mas a tendência a se estender no discurso sobre um assunto cientifico que não interessa a mais ninguém eu tenho um pouco. Aproveito para pedir desculpas a todos os amigos que me aturaram durante a faculdade de Biologia, especialmente durante a fase da caneca de plástico que me acompanhava para todos os lugares.

Por acaso existe alguém no universo que não quisesse ser amigo do Joey? O cara é bacana, engraçado, cheio dos contatos televisivos, curte animais, registra todos os momentos em viagens, é seguro o bastante sobre a sua sexualidade para usar batom azul e tirar sonecas de conchinha com amigos homens, se esforça para aturar a namorada do melhor amigo mesmo não suportando ela. É tanta qualidade que a gente até releva a coisa dele não dividir comida.

E aí tem o Chandler. A pessoa que um monte de gente acha que é gay só porquê ele não está constantemente acompanhado. A pessoa que decide mudar de carreira. A pessoa que passa a vida fazendo piada como forma de esconder a sua indisponibilidade emocional. Qualquer semelhança com essa que vos fala é mera coincidência.

E tudo isso foi só pra dizer que, sabe como é, eu sou meio Chandler. Tive que dar essa volta toda pra dizer que ter um blog é mais difícil do que parece, principalmente pra mim que prefiro contar 50 piadas do que falar de algo pessoal. Não acho que o Chandler era tipo de pessoa que teria um blog contando sobre a vida dele, e ainda assim, estou aqui. Talvez a gente não tenha tanto em comum afinal.

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Eu voltei

E eis que dez meses depois, eu voltei pra casa.

Foram dez meses de viagens intermináveis de ônibus, de medo de passar na fronteira de um país para o outro, e de carimbos no passaporte. Dez meses de diálogos com pessoas que não falavam a mesma língua que eu, de fingir que entendia o inglês dos asiáticos, e de aprender palavras em outros idiomas que duravam no máximo uma semana no meu cérebro. Dez meses de comida sem tempero, comida exótica, e comida deliciosa. Dez meses de muitas aventuras, muitos novos amigos, e nenhum arrependimento.

OK, talvez esse último item seja um exagero, claro que tiveram arrependimentos. Me arrependi de pedir aquele prato super apimentado na Tailândia que eu nem consegui terminar de comer. Me arrependi de não ter feito aquele trekking na Malásia por medo do tempo não firmar. Me arrependi de não ter comprado aquele livro em Praga porque achei que não ia ter lugar na mala.

Mas ao contrário do que muita gente achou, não me arrependi de ter chutado o balde e caído no mundo. Mesmo tendo voltado um pouquinho antes do que eu havia planejado inicialmente, foi tudo (meio que) friamente calculado.

E voltei e nada mudou. Minha irmã continua bagunçando a casa, meu pai continua incapaz de ligar o DVD sozinho, e minha mãe continua cozinhando maravilhosamente. As rolinhas continuam invadindo a casa para comer a ração do cachorro, e ainda é preciso fazer uma forcinha pra direita na hora de fechar a porta do armário.

Mas tudo isso não era mais suficiente, eu precisava de um pouco mais. Um pouco mais de aventura, de desconhecido, de desafio. E foi por isso que eu resolvi que ainda não era hora de voltar de vez. Era o momento apenas de rever os amigos e a família, fazer um carinho no gato, tirar a barriga da miséria com as comidinhas de mamãe, e ser a maluca que vai embora de novo.

Agora estou em Pequim onde, se tudo continuar dando certo, devo ficar por pelo menos um ano. Eu tenho outra cama, outra casa, outra rotina. Por enquanto ela me apetece, não sei quanto tempo vou levar para me cansar dela, mas quando até uma uma ao supermercado vira uma aventura, fica difícil imaginar que eu irei me cansar dessa vida num futuro próximo.

Uma lista importante

“O mochileiro é um viajante independente, que organiza suas viagens por conta própria, dando ênfase ao conhecimento, aventura e diversão. Geralmente, utiliza meios de hospedagens mais econômicos e costuma fazer viagens mais longas.” Ufa, acho então que faço mesmo parte do grupo, pelo menos segundo à Wikipedia.

A dúvida começou a pairar sobre a minha cabeça antes mesmo de por os pés na estrada. Durante as minhas intermináveis pesquisas internéticas, entre sugestões de roteiro no sudeste asiático e dicas para economizar na Europa, um tema com o qual eu esbarrei várias vezes foi “o que não pode faltar na mochila de um mochileiro de verdade” (ou qualquer coisa desse tipo).

Essas listas costumam ser meio redundantes, ou criativas até de mais. Afinal, quem viaja sem levar calcinha? Ou melhor, é realmente necessário ter vitaminas na mala para uma viagem de 15 dias?

Sei lá, vai ver que eu é que não sou uma mochileira “de verdade”. Se bem que se viver 10 meses exclusivamente com o conteúdo de uma mochila não é ser mochileiro, eu não sei o que é. E por me considerar parte do grupo sim, é que eu decidi fazer a minha própria lista, mas um pouco diferente, uma lista das coisas que você com certeza vai ter dentro da sua mochila durante uma viagem de longo prazo, mesmo que você não tenha muita certeza de como elas foram parar lá:

  • Um pé de meia avulso que teve seu par perdido por aí, mas que não foi jogada fora porque em algum momento outra meia vai ficar sozinha, e mesmo diferentes elas vão poder formar um par;
  • Uma peça de roupa rasgada/manchada mas que continua sendo usada como qualquer outra, porque se está mochila, tem que ter utilidade;
  • Uma peça que um dia já foi branca, hoje nem tanto, e se alguém falar alguma coisa a gente sai pela tangente dizendo que é off white e vai conversar com outro mochileiro amigo com uma blusa mais encardida que a sua;
  • Um peça de roupa bem típica que você dificilmente vai ter coragem de usar na vida real. Por exemplo, que atire a primeira pedra quem conseguiu sair da Tailândia sem ter comprado a calça de elefante;
  • Uma peça de roupa que não é sua. Pode ter vindo de brinde na leva que foi para a lavanderia, mas a gente nunca vai saber…;
  • Panfletos e ingressos de atrações turísticas nas quais você não foi;
  • Moedas de países onde você esteve meses atrás, que não servem para nada a não ser fazer peso, mas que a gente se recusa a dar fim porque vai ter que servir de souvenir já que você não comprou nem um imã de geladeira para guardar de recordação.

Às vezes, você só descobre que tudo isso estava na mochila ao finalmente chegar em casa e ter a dolorosa tarefa de desfazê-la. Às vezes, entre um destino e outro, num albergue de qualidade duvidável, você se pega com um desses itens na mão e decide se desfazer logo dele, afinal, espaço sobrando na mochila é tão desejável quanto café da manhã incluído na diária. Mas o que importa é que em algum momento, tudo isso esteve lá.

Fazer a blogueira de viagem viciada em listas dá mais trabalho que carregar por aí uma mochila com uns quilinhos a mais que o estritamente necessário. Mas ter uma desculpa para lembrar dos pequenos detalhes da viagem é tipo ter um Mastercard, não tem preço.

De porrete na mão

Pode chamar de preguiça. Pode chamar de procrastinação excessiva. Pode até chamar de depressão pós-viagem. Não importa como você chame, como é possível uma pessoa ter viajado durante 10 meses, visitado 16 países, perdido as contas de quantas pessoas conheceu, e mesmo assim estar a 3 meses sem escrever uma linha se quer?

Eu poderia culpar as últimas semanas intensas da viagem, as séries que precisavam ser colocadas em dia, a saudade da minha cama, os filmes do Oscar que ainda não haviam sido assistidos, o gato recém-atropelado que precisava de atenção, a arte de transformar aquele “vamos marcar” em realmente encontrar as pessoas que eu não vejo a quase um ano, e até a árdua tarefa que é tentar arranjar um emprego de novo.

Mas, ao usar o tempo livre que eu finjo que não tenho para navegar pelo Tumblr, eis que eu me deparo com uma citação de um dos meus autores favoritos que fez com que eu enfrentasse a minha falta de vergonha na cara:

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Ou, em claro e bom português, “Você não pode esperar por inspiração. Você tem que ir atrás dela com um porrete”.

É verdade que eu não tenho muita inspiração, mas eu tenho um blog para ser atualizado. Então, de porrete imaginário na mão, lá vou eu vasculhar o celular cheio de anotações quase indecifráveis que variam de algumas palavras soltas à incontáveis frases desconexas, torcendo para que essas notinhas misteriosas se transformem em histórias que valham a pena serem contadas.

É bem provável que eu não tenha tantos episódios interessantes sobre a estrada para contar quanto o próprio Jack London, mas não me custa tentar. Antes isso que sonhar com um escritor furioso como um lobo me perseguindo com um porrete.

 

Rotina de estudante

Hoje é domingo. Eu acordei quase às nove, sem despertador, sem correria, e sem os fogos de artifício (sim, os posts raivosos anuais do Facebook me lembraram de como eu estou feliz por não estar aí no dia de São Jorge dessa vez). Hoje é domingo e, depois de uma semana de quase folga, eu acordei com aquele sentimento que a muito tempo eu não sentia de lembrar que amanhã começa tudo de novo.

Acordar cedo, dar aula, ouvir a opinião dos colegas sobre a sua aula, dar a sua opinião sobre a aula dos colegas, almoçar correndo (geralmente no restaurante turco onde o gerente fala português), ter aula sobre como dar aula até às cinco, gastar alguns minutos tentando se entender com a impressora para ter cópias de todo o material do dia, voltar pra casa e passar o restante das horas se dividindo entre a leitura obrigatória e o planejamento da aula para o próximo dia.

É, não mentiram na descrição do curso quando falaram que era puxado. E aí chega o fim de semana e, além de dormir 12 horas seguidas, tem os trabalhos para fazer que deixam as pessoas tão desesperadas que fazem a gente marcar de encontrar a turma (pra quem a gente não aguenta mais olhar, diga-se de passagem) para ver se não esquecemos de colocar nada.

Mas ufa! Excepcionalmente durante esse mês, esse curso intensivo tem uma semana de “férias” no meio para estimular que os alunos conheçam mais da cidade e do resto da Hungria. Que beleza! Mas calma, tem os amiguinhos que vão precisar refazer o primeiro trabalho te pedindo ajuda, tem mais dois trabalhos (de mil palavras cada) para serem entregues na próxima semana, tem a aula de segunda para preparar e, como Murphy não dorme no ponto jamais, tem o frio, a chuva, o vento, e até ameaça de neve.

OK, estou reclamando demais, até consegui um dia de sol para passear depois de ter finalizado meus deveres acadêmicos e tempo suficiente para atualizar o blog, é ou não é para glorificar de pé? Como diria minha diva RuPaul: “Can I get an amen?”.

Mas amanhã é segunda, é dia de começar tudo de novo. É dia de tentar (geralmente em vão) pronunciar o nume dos alunos húngaros certo, de torcer pro áudio funcionar, de fazer o possível pra lembrar que tem que tirar uma cópia a mais para entregar para o tutor, e de se conformar que, mesmo quando você consegue dormir, vai ter sonho com a aula sim!

Bora então ver só mais um episódio daquela serie nova no Netflix e encher a cara com o resto de chocolate que sobrou da Páscoa, porque ainda tem mais duas semanas intensas pela frente, e puts, amanhã é segunda. Que bom. Estava sentindo falta dessa coisa chamada rotina…

 

As coisas que eu não fiz na Tailândia

A Tailândia é um lugar maravilhoso.Tem praia, montanha, cachoeira, templo, mesquita, museu, mercado,… coisa para fazer para todos os gostos. E graças a essa infinidade de opções, eu acabei fazendo muita coisa que dificilmente eu faria na minha “vida real”, o suficiente para a minha família viver repetindo que eu devo ter sido abduzida.

Por exemplo, apesar no meu pavor de entrar no mar a noite temendo que alguma criatura gigante das profundezas resolvesse dar um rolé e me usar de aperitivo, eu me joguei na completa escuridão em Phi Phi para poder nadar com plânctons brilhantes que me fizeram sentir a própria Pequena Sereia. E mesmo sendo a rainha do sedentarismo, eu topei fazer escalada nos paredões de rocha em Krabi (ainda que tenha ficado só nas paredinhas). Eu até comi grilos fritos, veja só!

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Mas ainda assim, vira e mexe aparece alguém perguntando se eu fiz ou vou fazer alguma coisa que todo mundo associa à Tailândia, mas que honestamente não está na minha lista por razões diversas.

Não, eu não vou fazer uma tatuagem de bambu com os monges. Para começar, que na versão séria dessa parada você não escolhe o desenho nem o local da tattoo. É o monge que decide o que e aonde vai ser e tem todo um significado espiritual que não faz o menor sentido pra mim, ateia até o último fio de cabelo. Além disso, não combina nem um pouco com o estilo das minhas outras tattoos.

Não, eu não visitei a vila das “mulheres-girafas”, porque depois de muita pesquisa fiquei sabendo que elas são na verdade de um povo refugiado vindo de Myanmar que recebe um tratamento no mínimo duvidoso do governo tailandês. Ouvi relatos de pessoas que se sentiram visitando um “zoológico de gente”, e eu não tenho o menor interesse em contribuir para isso. Ah, e eu também não fui assistir a um show de ping pong. Por mais que eu ache que todo mundo deve aproveitar o talento que tem, acredite, aquelas mulheres não estão se divertindo.

Não, eu não fui no templo dos tigres (aliás, em nenhum deles, porque tem alguns espalhados por aqui), porque eu não preciso de uma foto abraçada com um felino de mais de 100 quilos que precisa estar obviamente dopado para não pular na minha jugular. E para continuar no tópico animais, não, eu não andei em cima de um elefante que precisou ser torturado quando filhote para aceitar esse tipo de interação com humanos.

Mas em compensação, depois de muita pesquisa à procura de um lugar ético, passei o dia em um santuário que resgata elefantes que antes eram usados para diferentes tipos de trabalho, e lá eu pude alimentá-los, tomar banho no rio com eles e ver como eles vivem “quase” em liberdade. Foi simplesmente maravilhoso, e a prova disso é a minha cara de pateta em todas as fotos que eu tirei aquele dia.

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Mais de dois meses já se passaram desde que eu cheguei na Tailândia e não, eu não fiz tudo que eu poderia fazer. Não por falta de tempo, mas porque eu escolhi fazer coisas que não só me renderiam momentos de diversão e fotos com muitas curtidas nas redes sociais, mas coisas que não causassem um impacto negativo na vida dos envolvidos ou que contribuíssem para a perpetuação de situações de injustiça. E depois de gastar todo o meu arsenal de palavras bonitas, posso dizer que não me arrependo, e vou continuar a não fazer várias coisas pelo mundo.

 

O mesmo avião, o mesmo cara, mas duas impressões muito diferentes

Antes da história em si é preciso dizer que 1) quem se lembrou do confuso comercial do Trivago ao ler o título ganha pontos extras e 2) eu quero deixar claro que esse post não significa que eu virei uma daquelas pessoas chatas que só falam de viagem (apesar de admitir a possibilidade de outros posts sobre o assunto).

Voltando de viagem a caminho da Itália onde faríamos a escala para pegarmos o voo para o Brasil, minha amiga e eu tivemos uma experiência bastante esclarecedora sobre tudo aquilo que havíamos passado durante a as últimas semanas. Como não fizemos o check-in pela internet, acabamos sentando separadas mas próximas, e da onde eu estava conseguia vê-la sentada umas duas fileiras a frente.

Enquanto eu estava me acomodando no meu assento, não pude deixar de notar o cidadão sentado ao lado da minha amiga. Um cara de uns vinte e poucos anos, cabelos impecavelmente cortados no estilo da moda jovem, tênis arrumadinhos e limpinhos demais para o meu gosto, uma calça preta estranha bem larga na parte de cima e meio apertada na panturrilha, e para finalizar com chave de ouro, a jaqueta mais feia que eu já vi na vida, preta estampada com correntes, capaz de fazer eu batiza-lo mentalmente de Mr. Ugly Jacket. Basicamente, ele parecia estar fazendo cosplay do  MC Hammer eu achei que a qualquer momento ele se levantaria para performar U Can’t Touch This. Confesso que mesmo a duas fileiras de distância, o olhar de “sou galã” e o incessante mascar de chiclete com a boca aberta não ajudaram em nada a (má) impressão que eu estava tendo dele.

Como nenhuma história de viagem está completa sem um perrengue, alguma coisa estava acontecendo no aeroporto de Roma e nós ficamos muito tempo presos no avião sem poder desembarcar. E como é comum entre passageiros desesperados perigando perder o voo de conexão, as pessoas começam a conversar com que está próximo. Enquanto eu estava compartilhando minhas teorias psicóticas sobre o que estava causando o atraso com o simpático casal de velhinhos brasileiros ao meu lado, fiquei um pouco chateada pela minha amiga quando percebi que o cidadão estava puxando assunto com ela.

Quando finalmente descemos do avião, vi que o Mr. Ugly Jacket continuava a papeando com a minha amiga e, que ele era daquele tipo de pessoa que gosta de encostar nos outros enquanto conversa. Estava com nervoso só de olhar! Depois que eles se despediram (com direito a beijinhos no rosto, é claro) eu me aproximei dela e comentei como estava mal por ela ter que aguentar aquele cara bizarro aquele tempo todo e, para a minha surpresa, a opinião da minha amiga era muito diferente da minha:

_ Ele? Íncrivel, né? Até trocamos emails. É italiano, mas mora em Londres, veio visitar a família aqui. Viu as sacolas que ele trouxe de presente para eles? Só coisa de marca! Aliás, e a jaqueta que ele estava vestindo? Versace!

Talvez eu seja muito chata, talvez a minha amiga seja só muito facilmente impressionável, talvez seja um pouco dos dois, mas o Mr. Ugly Jacket vai ser para mim o símbolo maior do famoso ditado brasileiro “gosto é igual a bunda, cada um tem a sua”.

Sozinha sim, e daí?

Estou no meio da galera esperando o show que eu tinha ido assistir começar e, vendo um monte de gente de casal ou em grupo, rola aquela constatação trágica: sou a única pessoa do mundo sem amigos. Triste isso.

Mas pensando bem,  mais triste ainda é ficar em casa sozinha numa sexta a noite enquanto uma banda que você adora e provavelmente não vai voltar ao Brasil tão cedo faz show na sua cidade. Mais triste ainda é se lamentar novamente enquanto lê as resenhas descrevendo o quão maravilhoso foi aquele show que você perdeu por que nenhum amigo, colega ou conhecido estava a fim de te acompanhar. E por isso, inspirada em Rita Lee, uma das minhas musas, posso dizer que “um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo que eu queria fazer”,  o que inclui ir ao show do Arcade Fire, mesmo que sozinha.

Tive uma noite ótima: tomei um sorvete no McDonald’s só para fazer hora, arranjei um lugar bacana para ver o show, conversei com desconhecidos sobre amenidades musicais, pulei, dancei, pisei num pé ou outro sem querer, cantei, fingi que sabia francês, gritei como uma louca, e saí de lá com a certeza de que teria me arrependido amargamente se tivesse ficado em casa e que nunca mais perderei outro show por falta de companhia.

Arcade Fire, Citibank Hall, 04/04/2014

Arcade Fire, Citibank Hall, 04/04/2014

Isso tudo fez com que eu me lembrasse do cara simpaticão (se essa palavra não existe, quero créditos) que estava sozinho no show do Arctic Monkeys a uns anos atrás, conversando com todo mundo que estava ao redor, repassando a água mineral dada pelos seguranças na grade e me mandando as fotos por email depois (valeu mesmo, amigo que eu não lembro o nome, suas fotos ficaram ótimas). Lembrei também da menina do Lollapalooza do ano passado que foi comigo e meus amigos na roda-gigante porque ela estava sozinha. Depois a vimos sentada numa canga acompanhada apenas de um pedaço de pizza. Espero que naquele dia ela tenha se divertido tanto quanto eu me diverti na semana passada.

Só é uma pena que eu tenha levado 27 anos e perdido muitos shows para decobrir que é melhor ser a desacompanhada, do que a arrependida  que ficou em casa. Isso sim é triste.

A maluca da moeda

O tempo passa, as estações mudam, mas se há uma coisa que não muda na minha vida é a capacidade que eu tenho de atrair maluco. Sabe a cidadã que entra no ônibus ouvindo música (com fones de ouvido, pelo menos), cantando junto e fazendo caras e bocas para transmitir emoção? Senta do meu lado. O cara que perde o próprio carro no estacionamento do shopping? É da minha família. A criatura que liga para o número de telefone errado e teima que o errado é você que atendeu? Me liga quase toda semana.

Último exemplo dessa minha habilidade fenomenal? Estava andando calmamente a noite pela rua quase deserta saindo do trabalho. A moça que andava alguns metros a minha frente deixou uma moeda cair no chão e ao pega-la, achou que me devia alguma satisfação dizendo “Nossa, é muito chato essas moedas que ficam caindo no chão.” Fiz cara de quem entendia a situação e continuei meu caminho, mas ela, que também continuou caminhando, agora ao meu lado, resolveu emendar com “Já perdi R$20,00 na rua, mas uma moça achou, aí eu paguei um cachorro quente e uma Coca-Cola pra ela.”

Inocentemente eu achei que se parasse de olhar para ela e passasse a olhar para a frente, ela me deixaria em paz, mas ela continuou: “Cheirosa essa pipoca! Eu adoro pipoca, mas me dá uma azia terrível… Tá vindo do trabalho?” Oi? Ai socorro, agora ela quer interagir… Para não deixar a pobre maluca no vácuo completo, me limitei a balançar a cabeça em afirmação, mas antes mesmo que eu começasse a fazer o gesto ela prosseguiu: “Eu trabalho no posto de gasolina lá no fim da rua, mas não gosto de andar na rua muito tarde porque é perigoso. Eu moro na Barra da Guaratiba, mas meu namorado e eu morávamos… É só namorado, eu sou divorciada, não deu certo, sabe?”

Então, para o meu alívio, ela disse que era o ônibus dela e entrou correndo. Ufa! Até agora estou meio atordoada com a quantidade de informações que eu recebi aquele dia. Ainda bem que a a rua só tinha uns 500 metros, se fosse um pouco mais eu teria sabido até a cor da calcinha da minha amiga-que-não-gosta-quando-a-moeda-cai-no-chão.

A Cinderela mente

Esse deve ser o título mais auto-explicativo da história. Simples assim: a Cinderela mente! E descaradamente! Ou então ela deve ter algum descompasso mental, só pode. Não tem como viver essa vida que ela leva e ser feliz dessa maneira!

Aqueles que me conhecem devem estar achando que esse post tem algo a ver com o fato de eu ter tido a minha carga de trabalhos domésticos consideravelmente elevada nos últimos dias com a minha mamãe recém-operada, mas estão redondamente, quadradamente e triangularmente enganados. O meu problema é outro e se repete todo ano com a chegada da primavera…

A farsante

A farsante

Com as temperaturas subindo e as plantinhas florescendo, os pássaros decidem que está na hora de procriar. Até aí tudo bem, tudo lindo. O problema é que sempre tem um casal que resolve montar seu ninho em cima do meu ar condicionado, e aí, quando os filhotinhos nascem, eu passo a ser acordada diariamente por uma sinfonia de gritos esfomeados.

E é por isso que eu digo, a tal Cinderela é uma farsante. Não dá para a pessoa ser feliz e reluzente daquele jeito depois de ter sido acordada por pássaros histéricos! Eu que o diga. Sou prova viva. Não basta o calor e o suor aumentando nessa época do ano, meu mau-humor tem ainda mais esse combustível…

Pare de mentir, dona Cinderela. Essa pose de boa moça não engana mais ninguém. Todo mundo já sabe que você está de saco cheio das tarefas domésticas e doidinha para chutar o balde dessa família de mocreias. Abrace o mau-humor que existe dentro desse coraçãozinho e reclame de tudo e de todos você também! Até dos passarinhos fofos, porém inconvenientes!