O caso (ou não) do Tinder

Um belo dia enquanto eu estava em Budapeste o Tinder foi instalado no meu celular. Não por mim, mas por uma amiga maltesa meio louca depois de muitas taças de vinho nas ideias. Nas ideias dela, não nas minhas. Se bem que onde eu estava com a cabeça quando fui ao banheiro e deixei meu celular que nem senha de bloqueio tem dando sopa em cima da mesa? É claro que quando eu voltei, a mesa inteira estava mobilizada em montar o meu perfil no aplicativo que, segundo eles, mudaria o meu eterno status de encalhada em pouco tempo.

Para falar a verdade, depois disso o app ficou meio esquecido no meu telefone por alguns dias. Eu tinha acabado de voltar a viajar em ritmo frenético de mochileira e, além de preferir passar o meu tempo explorando as cidades que eu estava conhecendo do que explorando as opções de solteiros disponíveis na área, eu também iria ficar poucos dias em cada lugar.

Depois desse período inicial de inatividade eu confesso que a curiosidade bateu e eu até consegui trocar umas palavras com uns caras, mas nunca encontrei com ninguém e meu telefone, que não é nenhuma Brastemp (tem que ser meio velho pra pegar essa referência, mas eu nem ligo), logo começou a reclamar que não havia espaço na memória, e eu, obrigada a deletar os aplicativos que eram menos úteis, acabei me desfazendo do Tinder antes que ele tivesse de fato mudado a minha vida.

Só que aí, cá estou eu em outro país onde eu não conheço praticamente ninguém. Meu ciclo de amizades se resume basicamente aos colegas de trabalho que também são praticamente meus vizinhos. Tem dias que 90% das minhas interações sociais se resumem a ensinar o som das vogais para crianças chinesas de 6 anos.

“É ótimo pra fazer networking” . “Melhor maneira de sair se você não conhece muita gente”. OK, depois de alguns argumentos contundentes fui convencida pela inglesa com PhD em mudar de país. E na segunda atitude que não faz o menor sentido tomada nesse texto, dessa vez eu mesma baixei o tal do Tinder por livre e espontânea vontade.

Mais uma vez, depois de algum tempo relegado ao ostracismo, num dia de folga cinzento e solitário, resolvi que era hora de testar a eficácia do troço. Se fosse uma coreografia de lambaeróbica, eu teria me chocado com alguma parede de tanto que eu joguei pra esquerda. Em aplicativos de relacionamento ou na vida real, a minha seletividade é a mesma e, segundo algumas pessoas, ela é alta até demais.

Depois do que pareceu um desfile sem fim de gente estranha até mesmo para os meus padrões, enfim achei alguém que me pareceu interessante. Li a descrição e lá estava escrito que o cidadão gostava de rock, pontos pra ele. Passando pelas fotos vi que o cara estava numa banda, aí sim! Temos um candidato! Joguei pra direita e BINGO, deu match!

Começamos a conversar e ele parecia uma pessoa bacana até que fez a fatídica pergunta: “Mas você ta vindo pra Berlim quando?”. Oi? Acontece que com a minha falta de familiaridade com o tal do Tinder, eu acho que não marquei nas configurações a distância das pessoas que queria conhecer, ou então o aplicativo deve ter salvo alguma coisa de quando eu ainda estava na Europa, eu só sei que o troço estava me mostrando gente de tudo que era lugar, incluindo da só um pouco distante Alemanha.

Depois de explicar a confusão geográfica para o meu novo contatinho alemão, nos despedimos com um amistoso “qualquer coisa, manda uma mensagem se estiver por aqui”. Não que eu esteja planejando voltar na Alemanha tão cedo, nem que ele esteja pretendendo fazer uma visita a China num futuro próximo, mas é sempre melhor cobrir a decepção com uma camada de polidez.

Eu até acredito nessas pessoas que saem toda semana graças ao Tinder e similares e às vezes até acham o grande amor da vida por lá, mas talvez essa tática não funcione muito bem pra mim. Acho melhor usar o espaço precioso na memória do meu telefone com um aplicativo de tradução e continuar a aproveitar Pequim sozinha mesmo.

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