Coisas esdrúxulas acontecem na China

“Você está na estrada de novo?”. Recebi esse comentário numa foto que eu postei ontem, mas ele não foi o único. Durante as últimas semanas, tem sido comum que alguma variação dessa frase apareça num comentário quando eu posto alguma foto de terras indubitavelmente chinesas.

A resposta é que não, eu não estou viajando, eu estou morando em Pequim a um mês, e morar num lugar como a China é intensificar à quinta potência a probabilidade de que coisas esdrúxulas aconteçam. Sim, porque elas realmente acontecem todos os dias.

Por exemplo, estava eu andando tranquilamente pela rua a caminho de um templo escondido nos confins de um hutong caindo aos pedaços, achando que o máximo que poderia acontecer era eu me perder e nunca mais achar o caminho de casa. Como a rua era bem estreita, fui caminhando mais para o canto para não ser surpreendida por alguma moto ou bicicleta. Não, eu não estava com medo de ser assaltada, e sim de ser atropelada. Duas velhinhas vinham andando na direção contrária e como havia espaço de sobra, não me importei muito com elas enquanto eu parava para tirar uma foto da paisagem. Acontece que enquanto eu estava distraída tentando ajustar o foco, uma das senhorinhas desviou do seu caminho só para passar a mão em mim. Nada de cunho sexual, veja bem, ela só passou a mão no meu braço e riu pra mim porque provavelmente eu fui pessoa mais escura que ela já viu na vida.

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Foi por causa dessa foto que acabei sendo tocada por uma chinesa sexagenária

Também teve o dia em que eu fui almoçar num restaurante ocidental achando que a escolha facilitaria a minha vida, mas não foi bem isso que aconteceu. Mesmo com o cardápio em inglês e eu literalmente apontando o que eu queria, o pobre do garçom ficou tão desconcertado com o fato de eu não falar chinês que desistiu de me atender sozinho e pediu ajuda a uns outros clientes que estavam na mesa ao lado. Pelo menos a comida chegou sem problemas.

Mas nem sempre o tópico comunicação acaba em frustração (a rima não foi intencional, eu juro). Estava com umas amigas num parque e enquanto fazíamos um lanche, um pai acompanhado de seu filho de uns 10 anos de idade se aproximaram e sentaram no banco ao lado. O pai falava algumas coisas em chinês com o filho como se estivesse incentivando-o (para não dizer coagindo) a fazer alguma coisa. Até que o menino finalmente tomou coragem e comecou a conversar com a gente. O pai só queria que o filho praticasse um pouco de inglês com as ocidentais que estavam ali dando sopa. Aliás, eu daria 10 não só para o inglês dele, mas também para os conhecimentos em geografia, já que ele até sabia onde fica o Brasil.

O quesito fotográfico é sem dúvida um dos mais curiosos. Nesse tempo em que estive aqui já teve gente tirando foto minha sem pedir (em uma das vezes, com direito a flash), já teve gente tirando selfie num ângulo estratégico para que eu aparecesse no fundo, e já teve até a vovozinha que veio com um bebê no colo para tirar foto com o grupo de ocidentais que só estava esperando o metrô depois de um dia cansativo de trabalho.

Isso tudo e muito mais aconteceu em apenas um mês. Imagina só tudo que ainda pode acontecer em um ano?

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