A minha irmã e o paraíso

Eu abro o Facebook e a primeira coisa que aparece no meu feed é a informação de que a minha irmã (Heloá, sim, sempre ela) confirmou presença no evento “Meditação da Lua Cheia”, e com isso um sorriso involuntário se forma no meu rosto ao perceber que ela com certeza teria adorado trocar de lugar comigo nesses últimos dias de aventuras asiáticas.

Ao chegar no Camboja, minha intenção era só fazer o roteiro básico “Siem Reap para ver ruína e Phnom Penh para ver história triste” e então partir para o Vietnã. Mas sabe como é, conversa vai com a alemã na van aqui, conversa vem com o sueco no lobby do hostel ali, e de repente estou convencida de que tenho que incluir o litoral nos meus planos.

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Entre as poucas opções que eu tinha para escolher, preferi uma ilha pequena, sem badalação, que prometia ser o paraíso para aqueles que, assim como eu, curtiram o sul da Tailândia, mas acharam que seria bem melhor com menos gente. Mas aí vem a pegadinha, menos badalação = menos infraestrutura, e eu teria que lidar com isso por três dias.

Para começar, desde o início eu sabia que a energia elétrica da ilha é fornecida por geradores e estes são desligados por algumas horas após a meia noite. Parece assustador, mas na prática não foi tão ruim. Não tinha ar condicionado mesmo, a refrescância era na base de ventiladores e janelas escancaradas, mas durante a madrugada a temperatura ficava bastante agradável. Contra os mosquitos e outros seres da floresta adjacente, litros e mais litros de repelente combinados simpáticos mosquiteiros em cada cama. E quando o sol ameaçava nascer anunciando mais um dia de temperatura nas alturas, a eletricidade voltava e com ela os ventiladores voltavam a zunir com aquele barulhinho agradável.

O próximo problema nem era tão grande assim: não ter internet. No albergue mesmo, não tinha. Só consegui identificar dois estabelecimentos naquela praia que ofereciam wifi, num a comida era ruim, mas barata, e a internet nem sempre funcionava, no outro a comida era ótima, mas cara, então não interessa o quão bom era o sinal porque uma mochileira da minha laia não poderia ficar esbanjando seu rico dinheirinho. Olha aí uma oportunidade de se afastar um pouco dessa dependência que nós temos das redes sociais, de se livrar das amarras da tecnologia contemporânea! Um papo que a minha irmã adoraria estender, mas entre sucos e o pior macarrão ao pesto que eu já comi na vida, consegui sinal suficiente para avisar para a minha mãe que eu estava viva e postar uma foto no Instagram porque ninguém é de ferro.

Contudo, o terceiro desafio era com certeza o pior de todos: o banho. Não tinha água quente. Na verdade, não tinha nem chuveiro. O que havia era um banheiro tradicional com uma “banheira” onde a água fica armazenada e era preciso usar um baldinho para se banhar. Além disso, tinha também a plaquinha passivo-agressiva que lembrava aos hóspedes que “a água que usamos para o banho é a mesma que os locais usam para beber, portanto use com moderação”. Não que fosse novidade, já havia visto alguns banheiros desse tipo antes, mas foi a primeira vez em que tive que tomar banho num deles, e ainda ter que olhar a plaquinha a cada vez que eu enchia o balde não ajudava o meu estado de espírito.

Todas as vezes em que eu tomei banho naquela ilha eu imaginava Heloá gargalhando da minha situação, a final, o quanto eu não a sacaneei naquele carnaval que ela se juntou com uma galera que era a cara dos meus tempos de biologia e passou uns dias sem luz tomando banho frio? Karma sure is a b*tch…

O que importa no fim das contas é que o lugar era paradisíaco sim, e viver três dias sem internet tomando banho frio de baldinho não mata ninguém. Mas que os meus amiguinhos metidos a hippies da ilha não me ouçam, três dias foram mais do que suficientes para provar para mim mesma que esse estilo roots não tem nada a ver comigo. Aliás, festejei minha volta à civilização com um belo e longo banho quente e alguns episódios de Gilmore Girls na Netflix.

Saio desse episódio com duas informações importantes: uma ótima dica de destino de viagem para quando a minha irmã resolver se aventurar pelo Sudeste Asiático, e o nome de um resort bem arrumadinho na praia do outro lado da ilha (mas tão bonito quanto) onde eu vou me refugiar para escrever meu segundo livro depois de me tornar uma escritora best-seller aclamada pela crítica. Tenho certeza que além da internet potente que chega até a areia, chuveiros quentes não irão faltar…

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