Sobre não falar a língua de um país

A alguns dias vi um relato sendo compartilhado algumas vezes na minha timeline que me deixou completamente chocada. Uma mocinha, “carioca da gema” se vangloriava por ter se recusado a falar inglês para ajudar um gringo perdido nas ruas do Rio de Janeiro, afinal, se ele veio para as Olimpíadas tinha que ter aprendido português, de acordo com ela.

Com o meu vocabulário japonês restrito a “sim”, “não”, “oi” e “obrigada”, não consigo nem imaginar como estaria sendo minha viagem ao Japão se as pessoas por aqui seguissem a mesma linha de pensamento dessa coleguinha. Que bom que eles não são assim e, por enquanto, só tenho estórias fofas para contar.

  • (Quase) perdida no trem

Como já tinha ouvido falar que táxis são caríssimos no Japão, fiz o trajeto do aeroporto até o meu albergue de trem. Pedi informação (em inglês) no balcão do aeroporto e a atendente me indicou como chegar na estação e ainda me deu um mapa marcado com o trajeto que eu iria fazer e a estação na qual eu devia descer.

Fui lá e peguei o trem que não demorou a sair. Mas acontece que o meu mapa indicava que havia duas estações antes do meu destino, e o trem começou a fazer várias paradas em lugares que eu não conseguia achar no mapa e o desespero bateu. “Peguei o trem errado!”, é o que passa pela minha cabeça. Só tem japonês no trem e todos estão mexendo no celular, “Socorro, como eu faço agora?”.

Quando a menina que estava do meu lado baixou o telefone por uns minutinhos, perguntei se ela falava inglês e ela disse que só um pouco. Gelei, mas perguntei se ela podia me mostrar no mapa onde era a estação que nós estávamos. Depois de uns longos segundos em que eu não sabia se ela estava tentando se achar ou não tinha entendido a pergunta, ela me apontou a linha na qual eu esperava estar (só as estações principais estavam no mapa, entendi) e confirmou que o trem estava indo para o lugar que eu queria sim.

Se acabasse por aí, já estaria bom. Algumas estações depois (sim o trajeto era longo), a japonesa levanta para saltar, mas antes de sair do trem me avisa que faltam mais três paradas para a minha e que o trem em que estamos está atrasado 2 minutos.

Não tinha como ter uma primeira impressão melhor que essa, mas aí…

  • (Um pouco mais) perdida tentando achar o hotel

… depois da aventura no trem eu ainda tenho que andar uns cinco minutinhos e achar o hotel. Já tinha feito o caminho em casa pelo Google Street View e estava super confiante de que caminho seguir.

Achei o albergue sem problemas, mas quando chego na porta há um aviso de que pelo horário a recepção estava fechada e eu deveria seguir para a entrada noturna, com um mapinha para a pessoa não se perder.

Analu olha o mapinha. Analu compara o mapinha com o que ela tem em mãos. Analu memoriza o mapinha, segue em frente, dá a volta no quarteirão e acaba no mesmo lugar.

Decidi voltar ao contrário para ver se não tinha passado direto pela entrada e vi um senhorzinho em cima de uma bicicleta. Como já era tarde, a mochila estava pesando (mais pelo cansaço das 32 horas de viagem do que pelos 10 quilos) e não tinha muita gente na rua, resolvi pedir informação para ele mesmo.

Perguntei se falava inglês e ele mostrou que não. Apontei no mapa a localização e o nome do hotel. Ele fez cara de confuso, passou um tempo tentando entender para onde eu queria ir e quando eu pensei que tudo estava perdido e que eu teria que dormir na rua na minha primeira noite em Tóquio, ele pega o próprio celular e tenta ligar para o número do albergue escrito no meu papel.

Ele não conseguiu falar porque obviamente a recepção estava fechada, mas o que ele faz então? Sobe na sua bicicletinha para procurar pelo quarteirão, e só parou quando finalmente achou e me mostrou a entrada escondida depois de uma curva.

  • Como não iria conseguir explicar na mímica, nem tentei

O café da manhã tipicamente japonês tem arroz e peixe, o que poderia dificultar muito a minha vida, se não houvesse um Starbucks pertinho do meu hotel.

Já havia estado lá nos dias anteriores (foi lá que rolou a fofurisse do “Welcome to Japan” logo no primeiro dia), mas nesse dia queria partir logo porque o caminho seria longo então pedi o meu chocolate quente para viagem.

Fizeram meu pedido rapidinho, tudo certo, e me entregaram. Quando peguei o copo estava bem quente e sem aquele tipo de papel de proteção que normalmente eles colocam no copo para ajudar a segurar. Procurei no balcão onde ficam os canudos e guardanapos e nada. Eu podia simplesmente ter perguntado, mas imagina ter que explicar em inglês para uma pessoa que não fala a língua tão bem assim que eu precisava “aquele tipo de papel de proteção que normalmente eles colocam no copo para ajudar a segurar”?

Desisti e sai da cafeteria. Já tinha dado alguns passos na calçada quando uma das funcionárias vem atrás de mim, falando em japonês e me mostra a budega que eu estava procurando. Recapitulando: ela foi atrás de mim fora na loja para me dar o que eu estava procurando sem eu nem ter falado nada!

Resumindo, essa carioca do tal post: não seja essa pessoa. Talvez você não consiga acabar com a fome na África ou com o aquecimento global sozinho, mas você pode ajudar um turista que não fala a sua língua, e acredite, vai fazer toda a diferença no dia dele. Com certeza está fazendo pra mim.

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