Tchau, Pikachu!

Nesse momento estou no trem a caminho do aeroporto de Osaka e me despedindo do Japão. Ainda não consigo ter a mínima ideia de como as coisas serão na China, mas aqui foi como eu sempre sonhei. Mais ou menos.

Sim, todos são sorridentes e prestativos. Sim, é tudo muito limpo e organizado. Sim, as crianças são fofas. Sim, dá um pânico quando você vê a quantidade de estações de metrô, mas no fim dá tudo certo. Não, eles não falam inglês com muita desenvoltura, mas todo mundo se entende.

Mas olha, eu realmente não estava preparada para o calor, sempre achei que o clima aqui seria mais ameno. E os insetos! Quantas libélulas, borboletas e cigarras voando para todos os lados (pena que dificilmente ficavam quietinhas para as fotos)! Ainda bem que a minha irmã não está aqui, porque até eu fiquei meio impressionada com a quantidade de aranhas.

 

Também descobri uma coisa sobre mim: não, eu não gosto de comida japonesa. E eu nem estou falando de Sushi. Alguém precisa apresentá-los aos temperos, galera, sério, um pouquinho de alho não faz mal a ninguém. Só não precisa mexer no Ramem. Tá ótimo, continuem assim. E vamos também maneirar no sabor chá verde, tudo bem que eu não curto, e nem adianta tentar na versão chá, suco, smoothie, sorvete, bolo, bala, pão, nem macarrão.

Em 19 dias na terra do sol nascente teve templo, castelo, palácio, templo, jardim, parque, e já falei dos templos? E o mais legal foi ver que eles não estão ali só para os turistas, de vez em quando aparece alguém para dar uma rezadinha rápida antes do trabalho.DSCN0157

Chegou a hora de dar adeus ao Japão e oi para a China. Seja o que Buda quiser!

Tá calor

“Eu subestimei o verão japonês…”

Isso é tudo em que eu consigo pensar quando sento no metrô que acabou de abrir as portas depois de uma tarde de bateção de perna. Enquanto amarro o cabelo (e mentalmente xingo a minha mãe por ter decidido sair de cabelos soltos depois que ela disse que eu agora só ando com esse cabelo preso) e tento inutilmente secar o suor do meu rosto com um lencinho de papel, eu reparo na japonesa que se sentou na minha frente.

Sacola de compras na mão, provavelmente também esteve andando por aí debaixo do mesmo sol que eu, e uma calma e tranquilidade de quem está numa temperatura de pelo menos dez graus a menos que eu. Ela está de cabelos soltos e não há um fio fora do lugar, a franjinha também não parece grudada na testa.

Enquanto eu estou me abanando com o panfleto que recebi no museu, mais vermelha que um pimentão, ela está ali com uma pele que parece uma porcelana de tão branca. Enquanto eu estou de shortinho e regata sentindo o suor escorrer pelas minhas costas, ela veste uma saia esvoaçante até o meio da canela, blusinha de manga 3/4 e, pasmem, um casaquinho leve por cima. Isso tudo e nem uma gota de suor escorrendo pelo rosto, e eu aqui quase desidratada.

Ela não é a única. A senhora logo ao lado também está toda trabalhada na sobreposição e a menina que a acompanha está usando luvas sem os dedos estilo anos oitenta até os cotovelos. Fico com mais calor ainda só de olhar.

Pode até ser que elas estejam acostumadas com o calor de Tóquio, mas eu também devia estar, ou será que eu não nasci no Rio-40-graus?

Pelo que eu me lembro, cariocas vivem permanentemente suados. A gente já sai do banho querendo voltar para debaixo do chuveiro. Todo mundo já se sentiu meio mal por estar com uma pizza embaixo do braço. Dá até pena de ver os engravatados andando pelas ruas do centro da cidade em pleno dezembro. Não sabemos lidar com o calor, nosso corpo reclama e queremos sempre usar menos roupa.

Mas não no Japão. Japoneses devem ter uma fisiologia diferente, sei lá. Aliás, japoneses não, japonesAs. Porque pelo menos pela fisionomia daquele sujeito que se refresca com seu leque enquanto captura mais um Pokemón, ele deve estar sentindo o mesmo calor que eu.

Sabadão no parque

Muitas coisas podem acontecer num sábado preguiçoso no parque.

Você pode, por exemplo, estar andando calmamente na beira do lago tentando fotografar uma bela flor de lótus quando quase é atropelada por uma horda de caçadores de Pokemóns correndo atrás de algum monstrinho raro. Juro, de repente era muita gente andando na direção contrária a minha com celulares em punho, alguns correndo, justamente numa parte não muito larga do caminho. Achei que seria levada pela corrente, mas consegui me manter no lugar graças a um poste que me protegeu.

Aliás, você pode aproveitar o wifi do museu ali do lado para caçar uns Pokémons também, porque ninguém é de ferro e tem bem um Psyduck aqui dando sopa. Só não pode ir muito longe. Chegou no lago, acabou o sinal. Nunca vou conseguir chocar meus ovos assim…

Você pode também ser ousada e comer um negócio que você nem sabe o que é, mas já que estava com uma cara boa e um monte de gente comprando, porque não, né? Podia ser melhor? Podia. Mas deu para comer tudinho e ainda foi uma pechincha.

Você pode (quase) manter um diálogo com um senhorzinho japonês que não fala inglês. Enquanto eu estava sentada comendo minha comida estranha, o tal senhorzinho falou qualquer coisa em japonês pra mim e pela cara que eu devo ter feito ele entendeu que eu estava boiando e apontou para a minha tatuagem. Depois abriu a bolsa e tirou umas fotos de pessoas tatuadas no estilo tradicional japonês para me amostrar, era fotógrafo pelo jeito. Ele também elogiou o jeito que eu estava segurando o hashi (ou estava me sacaneando por estar fazendo muito errado, nunca saberei) antes de voltar a alimentar os passarinhos.

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O senhorzinho fazendo a alegria dos pássaros

Você pode ainda andar sem rumo pelo parque e encontrar um templo bem lá no meio. Nada estranho em se tratando de Japão. Mas o que esse templo tinha de especial é que estava acontecendo uma cerimônia lá dentro. Fiquei em um cantinho perto da porta para ver um pouquinho e não atrapalhar ninguém, mas eis que chega um monge e faz sinal mostrando que eu posso chegar mais perto para ver melhor.

Muitas coisas podem acontecer num sábado preguiçoso no parque, mas tudo parece mais mágico se você está no Japão.

Sobre não falar a língua de um país

A alguns dias vi um relato sendo compartilhado algumas vezes na minha timeline que me deixou completamente chocada. Uma mocinha, “carioca da gema” se vangloriava por ter se recusado a falar inglês para ajudar um gringo perdido nas ruas do Rio de Janeiro, afinal, se ele veio para as Olimpíadas tinha que ter aprendido português, de acordo com ela.

Com o meu vocabulário japonês restrito a “sim”, “não”, “oi” e “obrigada”, não consigo nem imaginar como estaria sendo minha viagem ao Japão se as pessoas por aqui seguissem a mesma linha de pensamento dessa coleguinha. Que bom que eles não são assim e, por enquanto, só tenho estórias fofas para contar.

  • (Quase) perdida no trem

Como já tinha ouvido falar que táxis são caríssimos no Japão, fiz o trajeto do aeroporto até o meu albergue de trem. Pedi informação (em inglês) no balcão do aeroporto e a atendente me indicou como chegar na estação e ainda me deu um mapa marcado com o trajeto que eu iria fazer e a estação na qual eu devia descer.

Fui lá e peguei o trem que não demorou a sair. Mas acontece que o meu mapa indicava que havia duas estações antes do meu destino, e o trem começou a fazer várias paradas em lugares que eu não conseguia achar no mapa e o desespero bateu. “Peguei o trem errado!”, é o que passa pela minha cabeça. Só tem japonês no trem e todos estão mexendo no celular, “Socorro, como eu faço agora?”.

Quando a menina que estava do meu lado baixou o telefone por uns minutinhos, perguntei se ela falava inglês e ela disse que só um pouco. Gelei, mas perguntei se ela podia me mostrar no mapa onde era a estação que nós estávamos. Depois de uns longos segundos em que eu não sabia se ela estava tentando se achar ou não tinha entendido a pergunta, ela me apontou a linha na qual eu esperava estar (só as estações principais estavam no mapa, entendi) e confirmou que o trem estava indo para o lugar que eu queria sim.

Se acabasse por aí, já estaria bom. Algumas estações depois (sim o trajeto era longo), a japonesa levanta para saltar, mas antes de sair do trem me avisa que faltam mais três paradas para a minha e que o trem em que estamos está atrasado 2 minutos.

Não tinha como ter uma primeira impressão melhor que essa, mas aí…

  • (Um pouco mais) perdida tentando achar o hotel

… depois da aventura no trem eu ainda tenho que andar uns cinco minutinhos e achar o hotel. Já tinha feito o caminho em casa pelo Google Street View e estava super confiante de que caminho seguir.

Achei o albergue sem problemas, mas quando chego na porta há um aviso de que pelo horário a recepção estava fechada e eu deveria seguir para a entrada noturna, com um mapinha para a pessoa não se perder.

Analu olha o mapinha. Analu compara o mapinha com o que ela tem em mãos. Analu memoriza o mapinha, segue em frente, dá a volta no quarteirão e acaba no mesmo lugar.

Decidi voltar ao contrário para ver se não tinha passado direto pela entrada e vi um senhorzinho em cima de uma bicicleta. Como já era tarde, a mochila estava pesando (mais pelo cansaço das 32 horas de viagem do que pelos 10 quilos) e não tinha muita gente na rua, resolvi pedir informação para ele mesmo.

Perguntei se falava inglês e ele mostrou que não. Apontei no mapa a localização e o nome do hotel. Ele fez cara de confuso, passou um tempo tentando entender para onde eu queria ir e quando eu pensei que tudo estava perdido e que eu teria que dormir na rua na minha primeira noite em Tóquio, ele pega o próprio celular e tenta ligar para o número do albergue escrito no meu papel.

Ele não conseguiu falar porque obviamente a recepção estava fechada, mas o que ele faz então? Sobe na sua bicicletinha para procurar pelo quarteirão, e só parou quando finalmente achou e me mostrou a entrada escondida depois de uma curva.

  • Como não iria conseguir explicar na mímica, nem tentei

O café da manhã tipicamente japonês tem arroz e peixe, o que poderia dificultar muito a minha vida, se não houvesse um Starbucks pertinho do meu hotel.

Já havia estado lá nos dias anteriores (foi lá que rolou a fofurisse do “Welcome to Japan” logo no primeiro dia), mas nesse dia queria partir logo porque o caminho seria longo então pedi o meu chocolate quente para viagem.

Fizeram meu pedido rapidinho, tudo certo, e me entregaram. Quando peguei o copo estava bem quente e sem aquele tipo de papel de proteção que normalmente eles colocam no copo para ajudar a segurar. Procurei no balcão onde ficam os canudos e guardanapos e nada. Eu podia simplesmente ter perguntado, mas imagina ter que explicar em inglês para uma pessoa que não fala a língua tão bem assim que eu precisava “aquele tipo de papel de proteção que normalmente eles colocam no copo para ajudar a segurar”?

Desisti e sai da cafeteria. Já tinha dado alguns passos na calçada quando uma das funcionárias vem atrás de mim, falando em japonês e me mostra a budega que eu estava procurando. Recapitulando: ela foi atrás de mim fora na loja para me dar o que eu estava procurando sem eu nem ter falado nada!

Resumindo, essa carioca do tal post: não seja essa pessoa. Talvez você não consiga acabar com a fome na África ou com o aquecimento global sozinho, mas você pode ajudar um turista que não fala a sua língua, e acredite, vai fazer toda a diferença no dia dele. Com certeza está fazendo pra mim.

Daqui pra frente

Uma vez li em algum lugar a pergunta “Você já fez alguma viagem que mudou sua vida?”. Fiz sim, da última vez que viajei tive a certeza que queria e que precisava viajar muito mais. A certeza foi tão grande que resolvi que um dia iria fazer a louca, pedir demissão, botar uma mochila nas costas e cair no mundo sem data marcada para voltar.

Não deu para esperar o convite do Gandalf, mas mesmo assim esse dia chegou. Na última segunda feira embarquei na maior aventura da minha vida e não faço ideia das coisas que irão acontecer daqui pra frente, só sei que se eu não atualizar esse blog com frequência vai ter gente se teletransportando para de dar umas bolachas.

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Para quem algum dia já tinha estado no meu blog, é possível que a quantidade de textos sobre os “causos” da minha irmã diminuam, mas nada é garantido (afinal, quem vai dar limites a essa menina comigo longe?). Aos que nem sabiam da sua existência, bem-vindos, e perdoem o mau português com excesso de parênteses e pontos de exclamação e o fato de eu nunca ter entendido direito as novas regras de acentuação.

 

 

Estragando a foto alheia (ou não)

Sabe aquela síndrome de “se eu peço outra pessoa tirar uma foto minha sempre sai horrível”? Sim, ela existe e sim, acontece com todo mundo, mas principalmente, acontece quando você está viajando e não tem ninguém pra tirar a sua foto ou você quer que todo mundo do grupo apareça na imagem. Receita para o desastre: vai ficar fora de foco, alguém vai piscar, o ângulo não vai favorecer e a paisagem não vai sair do jeito que você queria e pior, nem dá para ficar com muita raiva do desconhecido que te fez um favor e que você provavelmente nunca mais vai ver na vida.

Eu posso falar com propriedade porque (claro) já aconteceu comigo. Tudo que eu queria era uma foto com minhas amigas companheiras de viagem em frente a Torre Eiffel linda e iluminada, mas é claro que não foi isso que aconteceu.

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Muito boa essa recordação do chão da torre e dos banquinhos sujos. Ótimo o detalhe da lata de lixo também! Que bom que cortaram metade dessa torre sem graça, nem faz falta mesmo.

Eu poderia ter me tornado uma pessoa amarga, rancorosa e vingativa, disposta a estragar fotos de viajantes incautos que me pedissem para tirar suas fotos, mas não. Eu escolhi quebrar a corrente e ajudar as pessoas a terem uma lembrança fotográfica descente da sua viagem, e acho que consegui.

Enquanto eu estava na praia outro dia um casal muito simpático com um sotaque mineiro me abordou e pediu para que eu tirasse uma foto deles. Como eles estavam com água pela cintura e a praia estava cheia, me esforcei ao máximo para cortar os outros banhistas da foto, me abaixei para conseguir uma proporção bacana de céu e mar e ainda consegui um ângulo esperto com um barco de pesca ao fundo.

Acho que a mineira ficou contente com o resultado porque alguns minutos depois, quando um outro casal pediu que ela tirasse uma foto deles, ela fez exatamente a mesma coisa que eu (com direito a abaixadinha na areia e tudo) e, pelo que eu pude ver, não só a foto ficou bem parecida como ela me mandou um sorrisão de satisfação no final.

Satisfeita fiquei eu, moça de Minas! Satisfeita em ver que eu não estraguei a foto de ninguém e satisfeita em saber que o meu esforço se propagou. Quem precisa de pau de selfie, não é verdade?

 

A Fulana

Eu não sei quem é a Fulana, mas com certeza quero conhecê-la.

Um professor começou a falar sobre os alunos de uma de suas turmas, e ao descrever uma certa aluna, disse que mesmo após tantos meses de aulas ainda não tinha conseguido entender o je ne sais quoi da tal Fulana: “Ela é amiga de todo mundo! Dos gays, das lésbicas, dos héteros! Tá todo mundo sempre em volta da Fulana!”

A minha reação ao ouvir isso? “Olha, pelo que você está falando, a Fulana me parece uma pessoa ótima, uma pessoa de coração aberto, uma pessoa que aceita as outras como elas são sem preconceitos. Quer saber, eu também quero ser amiga da Fulana!”.

Minha declaração causou risos, mas eu não entendi bem o porquê. Como uma pessoa tão tolerante e agradável como a Fulana pode ser percebida com desconfiança? Como uma personalidade dessas pode ser comentada em tom de deboche? Como esse tipo de comportamento pode ser tido como exceção e não regra?

O mundo precisa de mais gente como você, Fulana! E eu sei que a sua oferta de amizades deve ser grande, mas se houver alguma vaga de amiga sobrando, estamos aqui para isso!

Qual será seu próximo destino, Analu?

Mais um dia começa. Eu ajudo minha mãe a colocar as coisas da casa no lugar e ligo o computador para começar a trabalhar. Abro meu e-mail para ver se há algo de novo e, assim como toda semana desde que eu voltei de viagem, está lá a maldita mensagem do Booking.com com o título mais passivo-agressivo de todos os tempos “Qual será seu próximo destino, Analu?”. Amigo, entenda que existem alguns motivos por eu jurar de morte o publicitário responsável por esta idea brilhante.

Para começar, receber um e-mail desses no meio da semana, quando estou cheia de provas para corrigir, notas para lançar e aulas para preparar é praticamente uma afronta. É um lembrete de que as minhas próximas férias estão a meses, eu disse MESES, de distância e escolher hotel só vai me deixar ainda mais deprimida do que ler na redação do aluninho “have a pool in the my house”.

Aliás, minhas próximas férias se encontram num futuro tão longínquo que eu simplesmente não sei qual será o meu próximo destino. O mundo é tão grande, as opções são tantas, e o dólar está tão caro que eu realmente não faço ideia de para onde eu quero ir agora. E se eu quiser meditar na Tailândia? E se eu estiver a fim de fazer a louca das compras em Miami? E se eu estiver mais inclinada a fazer um tour nerd pela Terra Média, também conhecida como Nova Zelândia? Mesmo que eu pudesse tirar férias amanhã, eu preciso de mais tempo para pensar.

Então, amigo publicitário, a resposta honesta para a sua incessante pergunta é “não sei”. Não sei hoje e provavelmente não saberei na semana que vem. Mas assim que eu decidir você com certeza saberá ao analisar minhas buscas recentes e começará a me enviar ofertas para esse destino. Aí sim vou ficar ansiosa pelas suas mensagens. Até lá, vou continuar tentando te ignorar sem surtar. Espero ter sucesso.

O mesmo avião, o mesmo cara, mas duas impressões muito diferentes

Antes da história em si é preciso dizer que 1) quem se lembrou do confuso comercial do Trivago ao ler o título ganha pontos extras e 2) eu quero deixar claro que esse post não significa que eu virei uma daquelas pessoas chatas que só falam de viagem (apesar de admitir a possibilidade de outros posts sobre o assunto).

Voltando de viagem a caminho da Itália onde faríamos a escala para pegarmos o voo para o Brasil, minha amiga e eu tivemos uma experiência bastante esclarecedora sobre tudo aquilo que havíamos passado durante a as últimas semanas. Como não fizemos o check-in pela internet, acabamos sentando separadas mas próximas, e da onde eu estava conseguia vê-la sentada umas duas fileiras a frente.

Enquanto eu estava me acomodando no meu assento, não pude deixar de notar o cidadão sentado ao lado da minha amiga. Um cara de uns vinte e poucos anos, cabelos impecavelmente cortados no estilo da moda jovem, tênis arrumadinhos e limpinhos demais para o meu gosto, uma calça preta estranha bem larga na parte de cima e meio apertada na panturrilha, e para finalizar com chave de ouro, a jaqueta mais feia que eu já vi na vida, preta estampada com correntes, capaz de fazer eu batiza-lo mentalmente de Mr. Ugly Jacket. Basicamente, ele parecia estar fazendo cosplay do  MC Hammer eu achei que a qualquer momento ele se levantaria para performar U Can’t Touch This. Confesso que mesmo a duas fileiras de distância, o olhar de “sou galã” e o incessante mascar de chiclete com a boca aberta não ajudaram em nada a (má) impressão que eu estava tendo dele.

Como nenhuma história de viagem está completa sem um perrengue, alguma coisa estava acontecendo no aeroporto de Roma e nós ficamos muito tempo presos no avião sem poder desembarcar. E como é comum entre passageiros desesperados perigando perder o voo de conexão, as pessoas começam a conversar com que está próximo. Enquanto eu estava compartilhando minhas teorias psicóticas sobre o que estava causando o atraso com o simpático casal de velhinhos brasileiros ao meu lado, fiquei um pouco chateada pela minha amiga quando percebi que o cidadão estava puxando assunto com ela.

Quando finalmente descemos do avião, vi que o Mr. Ugly Jacket continuava a papeando com a minha amiga e, que ele era daquele tipo de pessoa que gosta de encostar nos outros enquanto conversa. Estava com nervoso só de olhar! Depois que eles se despediram (com direito a beijinhos no rosto, é claro) eu me aproximei dela e comentei como estava mal por ela ter que aguentar aquele cara bizarro aquele tempo todo e, para a minha surpresa, a opinião da minha amiga era muito diferente da minha:

_ Ele? Íncrivel, né? Até trocamos emails. É italiano, mas mora em Londres, veio visitar a família aqui. Viu as sacolas que ele trouxe de presente para eles? Só coisa de marca! Aliás, e a jaqueta que ele estava vestindo? Versace!

Talvez eu seja muito chata, talvez a minha amiga seja só muito facilmente impressionável, talvez seja um pouco dos dois, mas o Mr. Ugly Jacket vai ser para mim o símbolo maior do famoso ditado brasileiro “gosto é igual a bunda, cada um tem a sua”.

O que eu vou ser quando crescer?

Eu ainda anão cresci. Eu sei que já tenho 27 anos da cara, apesar da minha mãe se achar no direito de arredondar para 30 e dos meus alunos jurarem de pés juntos que eu ainda tenho 21, mas eu ainda não cresci. Simplesmente, não consigo conceber essa possibilidade. Como pode uma pessoa ser considerada adulta se até hoje nunca nem consegui responder “o que eu queria ser quando crescesse”.

Analu criança, quero ser astronauta. Acho que nos Estados Unidos isso nem seria considerado tão estranho assim, mas por aqui todos os meus amiguinhos riem por eu ser a única que não quer ser aeromoça nem veterinária. Essa fase até dura bastante, mas com o passar do tempo novas ideais surgem. Arqueóloga, vulcanóloga, caçadora de tornados, cientista, repórter do Discovery Channel…

Mais tempo passa, e na escola você começa a entender que aquelas matérias com as quais você tem mais afinidade provavelmente querem dizer alguma coisa sobre o seu futuro. Com os pés mais perto do chão e levando a questão da impossibilidade geográfica um pouco mais a sério, as alternativas mudam. Historiadora, arquiteta, médica, jornalista, ganhadora do Big Brother, fotógrafa de shows de rock, vitrinista, decoradora…

Mas chegou a hora de prestar vestibular e a opção é a Biologia. Bichinhos, plantinhas, pedrinhas rochinhas e celulinhas. Floresta, restinga, praia e montanha. Trilha, laboratório, triagem de material e relatório. CSI, pesquisadora ou professora universitária? Diploma na mão, mas não, peraí, acho que não é isso. Posso tentar de novo? Professora de Ciências, talvez? Segundo diploma na mão e…

E professora de Inglês? Ah,  legal… Divertido… Bacana, mas só isso? Tico e teco voltam a trabalhar. Tradutora, intérprete, blogueira de viagem, como é mesmo o nome de quem faz legenda?… Ainda pode voltar pra Biologia?

Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas.

Eu ainda não cresci. Eu não posso ter crescido. Eu ainda não sei o que eu vou ser quando crescer.