A minha irmã e o paraíso

Eu abro o Facebook e a primeira coisa que aparece no meu feed é a informação de que a minha irmã (Heloá, sim, sempre ela) confirmou presença no evento “Meditação da Lua Cheia”, e com isso um sorriso involuntário se forma no meu rosto ao perceber que ela com certeza teria adorado trocar de lugar comigo nesses últimos dias de aventuras asiáticas.

Ao chegar no Camboja, minha intenção era só fazer o roteiro básico “Siem Reap para ver ruína e Phnom Penh para ver história triste” e então partir para o Vietnã. Mas sabe como é, conversa vai com a alemã na van aqui, conversa vem com o sueco no lobby do hostel ali, e de repente estou convencida de que tenho que incluir o litoral nos meus planos.

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Entre as poucas opções que eu tinha para escolher, preferi uma ilha pequena, sem badalação, que prometia ser o paraíso para aqueles que, assim como eu, curtiram o sul da Tailândia, mas acharam que seria bem melhor com menos gente. Mas aí vem a pegadinha, menos badalação = menos infraestrutura, e eu teria que lidar com isso por três dias.

Para começar, desde o início eu sabia que a energia elétrica da ilha é fornecida por geradores e estes são desligados por algumas horas após a meia noite. Parece assustador, mas na prática não foi tão ruim. Não tinha ar condicionado mesmo, a refrescância era na base de ventiladores e janelas escancaradas, mas durante a madrugada a temperatura ficava bastante agradável. Contra os mosquitos e outros seres da floresta adjacente, litros e mais litros de repelente combinados simpáticos mosquiteiros em cada cama. E quando o sol ameaçava nascer anunciando mais um dia de temperatura nas alturas, a eletricidade voltava e com ela os ventiladores voltavam a zunir com aquele barulhinho agradável.

O próximo problema nem era tão grande assim: não ter internet. No albergue mesmo, não tinha. Só consegui identificar dois estabelecimentos naquela praia que ofereciam wifi, num a comida era ruim, mas barata, e a internet nem sempre funcionava, no outro a comida era ótima, mas cara, então não interessa o quão bom era o sinal porque uma mochileira da minha laia não poderia ficar esbanjando seu rico dinheirinho. Olha aí uma oportunidade de se afastar um pouco dessa dependência que nós temos das redes sociais, de se livrar das amarras da tecnologia contemporânea! Um papo que a minha irmã adoraria estender, mas entre sucos e o pior macarrão ao pesto que eu já comi na vida, consegui sinal suficiente para avisar para a minha mãe que eu estava viva e postar uma foto no Instagram porque ninguém é de ferro.

Contudo, o terceiro desafio era com certeza o pior de todos: o banho. Não tinha água quente. Na verdade, não tinha nem chuveiro. O que havia era um banheiro tradicional com uma “banheira” onde a água fica armazenada e era preciso usar um baldinho para se banhar. Além disso, tinha também a plaquinha passivo-agressiva que lembrava aos hóspedes que “a água que usamos para o banho é a mesma que os locais usam para beber, portanto use com moderação”. Não que fosse novidade, já havia visto alguns banheiros desse tipo antes, mas foi a primeira vez em que tive que tomar banho num deles, e ainda ter que olhar a plaquinha a cada vez que eu enchia o balde não ajudava o meu estado de espírito.

Todas as vezes em que eu tomei banho naquela ilha eu imaginava Heloá gargalhando da minha situação, a final, o quanto eu não a sacaneei naquele carnaval que ela se juntou com uma galera que era a cara dos meus tempos de biologia e passou uns dias sem luz tomando banho frio? Karma sure is a b*tch…

O que importa no fim das contas é que o lugar era paradisíaco sim, e viver três dias sem internet tomando banho frio de baldinho não mata ninguém. Mas que os meus amiguinhos metidos a hippies da ilha não me ouçam, três dias foram mais do que suficientes para provar para mim mesma que esse estilo roots não tem nada a ver comigo. Aliás, festejei minha volta à civilização com um belo e longo banho quente e alguns episódios de Gilmore Girls na Netflix.

Saio desse episódio com duas informações importantes: uma ótima dica de destino de viagem para quando a minha irmã resolver se aventurar pelo Sudeste Asiático, e o nome de um resort bem arrumadinho na praia do outro lado da ilha (mas tão bonito quanto) onde eu vou me refugiar para escrever meu segundo livro depois de me tornar uma escritora best-seller aclamada pela crítica. Tenho certeza que além da internet potente que chega até a areia, chuveiros quentes não irão faltar…

As coisas que eu não fiz na Tailândia

A Tailândia é um lugar maravilhoso.Tem praia, montanha, cachoeira, templo, mesquita, museu, mercado,… coisa para fazer para todos os gostos. E graças a essa infinidade de opções, eu acabei fazendo muita coisa que dificilmente eu faria na minha “vida real”, o suficiente para a minha família viver repetindo que eu devo ter sido abduzida.

Por exemplo, apesar no meu pavor de entrar no mar a noite temendo que alguma criatura gigante das profundezas resolvesse dar um rolé e me usar de aperitivo, eu me joguei na completa escuridão em Phi Phi para poder nadar com plânctons brilhantes que me fizeram sentir a própria Pequena Sereia. E mesmo sendo a rainha do sedentarismo, eu topei fazer escalada nos paredões de rocha em Krabi (ainda que tenha ficado só nas paredinhas). Eu até comi grilos fritos, veja só!

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Mas ainda assim, vira e mexe aparece alguém perguntando se eu fiz ou vou fazer alguma coisa que todo mundo associa à Tailândia, mas que honestamente não está na minha lista por razões diversas.

Não, eu não vou fazer uma tatuagem de bambu com os monges. Para começar, que na versão séria dessa parada você não escolhe o desenho nem o local da tattoo. É o monge que decide o que e aonde vai ser e tem todo um significado espiritual que não faz o menor sentido pra mim, ateia até o último fio de cabelo. Além disso, não combina nem um pouco com o estilo das minhas outras tattoos.

Não, eu não visitei a vila das “mulheres-girafas”, porque depois de muita pesquisa fiquei sabendo que elas são na verdade de um povo refugiado vindo de Myanmar que recebe um tratamento no mínimo duvidoso do governo tailandês. Ouvi relatos de pessoas que se sentiram visitando um “zoológico de gente”, e eu não tenho o menor interesse em contribuir para isso. Ah, e eu também não fui assistir a um show de ping pong. Por mais que eu ache que todo mundo deve aproveitar o talento que tem, acredite, aquelas mulheres não estão se divertindo.

Não, eu não fui no templo dos tigres (aliás, em nenhum deles, porque tem alguns espalhados por aqui), porque eu não preciso de uma foto abraçada com um felino de mais de 100 quilos que precisa estar obviamente dopado para não pular na minha jugular. E para continuar no tópico animais, não, eu não andei em cima de um elefante que precisou ser torturado quando filhote para aceitar esse tipo de interação com humanos.

Mas em compensação, depois de muita pesquisa à procura de um lugar ético, passei o dia em um santuário que resgata elefantes que antes eram usados para diferentes tipos de trabalho, e lá eu pude alimentá-los, tomar banho no rio com eles e ver como eles vivem “quase” em liberdade. Foi simplesmente maravilhoso, e a prova disso é a minha cara de pateta em todas as fotos que eu tirei aquele dia.

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Mais de dois meses já se passaram desde que eu cheguei na Tailândia e não, eu não fiz tudo que eu poderia fazer. Não por falta de tempo, mas porque eu escolhi fazer coisas que não só me renderiam momentos de diversão e fotos com muitas curtidas nas redes sociais, mas coisas que não causassem um impacto negativo na vida dos envolvidos ou que contribuíssem para a perpetuação de situações de injustiça. E depois de gastar todo o meu arsenal de palavras bonitas, posso dizer que não me arrependo, e vou continuar a não fazer várias coisas pelo mundo.

 

Um quintal em Bangkok

Ninguém te fala da parte ruim de morar num hostel. Sim, morar, porque depois de um mês e meio no mesmo lugar estou me considerando praticamente residente do Yard.

Eu dei muita sorte de escolher um lugar tão bom para ficar tanto tempo: ar condicionado potente, sala de estar bacana com televisão, camas super confortáveis, um quintal agradável, um staff mega simpático, impecavelmente limpo, isso sem falar no hambúrguer delicioso que tem aqui na frente (o segundo melhor da Tailândia, de acordo com a placa). Não tem 5 minutos de conversa com qualquer pessoa que faz o check-in que não inclua “Mas esse albergue é muito legal, né?”.

E o problema está justamente aí: as pessoas. São todas maravilhosas, mas estão de passagem, enquanto você está parado no mesmo lugar. Aí um belo dia você está com um grupo maravilhoso formado pelo canadense mais irônico do mundo, duas australianas fofíssimas que te ensinam a andar de bicicleta, um filipino que está fazendo um curso de culinária e traz comida pra todo mundo no fim do dia, e um alemão que parece um robô falando inglês. Tudo ótimo, só que três dias depois só sobrou você aí sozinha.

Mas tudo bem, porque chegou uma americana super simpática que está fazendo o mesmo roteiro que você mas ao contrário, um irlandês com obsessão por chapéus, um francês tentando aprender a falar inglês, uma chinesa que todo dia chega da rua com quatro malas de compras, uma holandesa que topou ir com você no café dos unicórnio… e olha a Analu sobrando de novo!

E aí essa semana temos o sueco com dengue, o sul-africano que cospe fogo, a americana que quer me convencer a fazer uma tatuagem, a suíça que não gosta que pensem que ela é sueca, o coreano que a gente perdeu em Chinatown, o DJ da Califórnia que ama bossa nova, e o australiano sem fundo que não para de comer pad thai. Só que dessa vez a brasileira que serve o café da manhã também está de partida.

Adeus, The Yard, foi bom enquanto durou. Vou sentir falta da geleia de verdade, do gato atropelado, de ver o último episódio de Westworld segunda feira de manhã com um monte de gente que também não está entendendo nada, de ficar com preguiça de sair e acabar jantando hambúrguer, mas principalmente, de ter uma mini reunião das nações unidas diária no quintal mais legal de Bangkok.

Khaosan Road: fui, vi e odiei

Você fica sabendo de um lugar descrito como “a rua mais mochileira do mundo”, e como um bom viajante você vai lá conferir, né? Pois é, eu fui. Eu fui e finalmente entendi o porquê de antes de eu chegar em Bangkok o que eu mais ouvi foi gente falando “Nossa, você não vai gostar”, “1 mês? Socorro, quase não aguentei 3 dias” ou “é um lugar horrível, fique o mínimo de tempo possível”.

Sinceramente, se eu estivesse hospedada na Khaosan Road, eu com certeza também estaria odiando a cidade com todas as minhas forças. Sim, eu sei que muita gente vai me achar a pessoa mais fresca do mundo e vai querer questionar “o que ela tá fazendo na Ásia então?”, mas amigo, a Ásia não é só isso não.

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O Sudeste Asiático não se resume a uma rua “de festa” onde não é possível andar mais de 100 metros sem que te ofereçam bebidas estranhas que vem num baldinho de praia, gás hilariante, escorpiões no palito, shows de ping-pong (nem queria saber o que é isso, aliás), drogas de todos os tipos, ou acompanhantes locais para todos os gostos. Na verdade, é bem provável que você veja isso tudo nesses 100 metros ao mesmo tempo.

Eu estive lá uma noite e simplesmente detestei. E para tentar provar pra mim mesma que eu estava sendo implicante eu voltei lá mais uma vez durante o dia. Com a luz do sol, as coisas parecem realmente mais limpas, mas a quantidade absurda de lojas de produtos falsificados e estúdios de tatuagem duvidosos continuaram a me incomodar um pouco. Pelo menos tem várias opções de restaurantes interessantes (eu tentando ser positiva e focar no que importa: comida, claro).

Tem gente que ama aquele inferno? Claro que tem! Mas definitivamente não é a minha, não é pra isso que eu vim para a Ásia. Estou aqui pela história, pela arquitetura, pela culinária! E também pelo precinho camarada. E amigo, eu vim do Rio, e se eu não curto nem o carnaval mais famoso do mundo, acho que está na cara que a Khaosan Road não iria ser a minha praia, né? Cada um no seu quadrado.

 

Um clubinho

Depois de perguntar para a quinta ou sexta pessoa da noite por quanto tempo ela estava viajando e ouvir pela quinta ou sexta vez “por uns meses, não tenho data pra voltar” (ou algo parecido com isso), o irlandês anunciou para o grupo com uma pontinha de ressentimento: “Eu volto pra casa para trabalhar daqui a cinco dias, e eu odeio todos vocês”.

Alguns meses atrás quando eu anunciei para a família e amigos que pediria demissão do meu emprego “estável” (já que a empresa ia bem, obrigada, e não havia previsão de cortes) e com até bastante benefícios para o meu cargo (não é tão fácil arranjar essas mordomias sendo professor), a maior parte das pessoas achou que eu estava ficando maluca, completamente louca, ainda mais com o país passando por uma crise dessas. Quer saber, não dei ouvidos e fiz as malas mesmo assim.

Só que aí você chega na Ásia e descobre que se você é mesmo louca, o que mais tem no mundo é maluco igualzinho a você. Pelos albergues do Sudeste Asiático, eu não sou a estranha que chutou o balde, eu sou só mais uma que percebeu que dava pra dar um pause na vida normal e passar um tempo viajando. Tem professor que cansou dos alunos, médico que cansou dos pacientes, marqueteiro que cansou dos clientes, e toda e qualquer profissão que você conseguir imaginar.

Somos praticamente um clubinho. Um clubinho de gente do mundo todo e que desperta inveja e admiração na galera que só tem no máximo duas semanas de férias e mesmo assim acorda de madrugada para responder emails profissionais enquanto está de folga. Enquanto eles já estão pensando em como vai ser difícil voltar à rotina daqui a uns dias, a gente só tem que decidir qual o próximo destino e torcer para ele ser tão bom quanto o atual (ou melhor).

Mas nem tudo é glamour no clubinho. Aqui a gente anda de trem para não ter que pegar um táxi. A gente investe horas de pesquisa, pega dois ônibus e uma barca, mas não paga pelo tour privado. A gente come bem, só que no restaurante baratinho ou na barraquinha de rua onde o povo que trabalha no hotel foi buscar o almoço deles. A gente pega o trem noturno que leva 12 horas para chegar na outro lugar para não pagar mais caro no avião e ainda economizar uma noite de hospedagem. A gente faz amizade com a pessoa só para rachar um quarto na próxima cidade onde não existe hostel.

E apesar de você conhecer um membro do clubinho num dia e já ter que dar tchau no outro, mais cedo ou mais tarde, todo mundo acaba se esbarrando por aí, porque afinal tá todo mundo indo pra Chiang Mai para o festival das lanternas, ou então fazendo uma parada estratégica em Krabi antes de escolher uma ilha para chamar de sua por uns dias. E se alguém te falar muito bem de um lugar, o povo do clubinho pode mudar os planos para ir lá dar uma conferida, porque ninguém está com pressa de nada e incluir mais uma cidade no roteiro não vai fazer diferença alguma.

E como não temos nada em comum com o clube da luta, eu posso escrever esse texto e torcer para que as pessoas entendam que o clubinho está aberto para todo mundo, e que não precisa ganhar na loteria para entrar nele. Só precisa estar disposto a deixar alguns luxos de lado para desbravar o mundo.

 

O luto na Tailândia

Da série coisas que só acontecem com a Analu: tudo certo para eu ir pra Tailândia, passagem comprada, esquema de trabalho em troca de hospedagem acertado, lista dos locais que eu queria visitar definida, e pá! O rei morre.

Para ser sincera, eu nem sabia que a Tailândia era uma monarquia até então. Aí, estou eu muito bem na Malásia e acordo um belo dia bombardeada por mensagens do Brasil e marcada em 367 posts do Facebook sobre a morte do monarca e como as coisas mudariam em terras tailandesas por causa do luto. Quando li tudo (e sim, eu li TUDO que aparecia por medo, mas também pela falta do que fazer causada pelos dias de chuva que eu peguei), achei que o povo estava exagerando. Mas claro que quando cheguei por aqui, percebi que as coisas realmente estavam estranhas.

Para começar, todo mundo só está vestindo roupas pretas. Mesmo. Já tem quase um mês e as pessoas continuam vestindo preto. Quem usa uniforme de outra cor para trabalhar, coloca uma fitinha preta para indicar o luto. E parece que as lojas só tem peças pretas ou brancas (que é a outra cor aceitável, mas você vê em uma quantidade muito menor) para vender. Sorte minha que mais da metade do meu guarda-roupas é formado por modelitos dessa cor, mesmo que eles não liguem muito para o que os turistas estão usando (melhor evitar confusão).

Tem muitos “mini-altares” em homenagem ao rei em qualquer lugar. Na frente de prédios, nas estações de trem, nos shoppings, nos templos e museus, sempre tem uma foto enorme do rei rodeada de arranjos de flores.

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Ainda não entendi muito bem como funciona, mas para celebrar a benevolência do falecido, doações estão sendo recolhidas e distribuídas para população. Já vi água (mineral, na garrafinha, e gelada ainda por cima), comida, flores e vários tipos de brindes. Conheci um belga aqui no albergue que descolou um almoço completo sem pagar nada, e ainda ficou #chateado porque não conseguiu ganhar o guarda-chuva.

No que se refere às festas, as coisas estão mais confusas. Na teoria, era pra não ter nada pelo menos no próximo mês, mas o povo dá seu jeitinho. É verdade que várias boates estão fechadas, mas na infernal Khaosan Road (que merece um post só pra ela um dia) todos os estabelecimentos continuam abertos até altas horas. A tal da Full Moon Party foi oficialmente cancelada, mas ouvi dizer que as pessoas foram pra lá mesmo assim e como não tinha música, ficaram cantando num clima rave à capela.

E tem as interdições no trânsito que podem acontecer a qualquer hora em qualquer lugar para a passagem de algum carro oficial. E quando eu digo trânsito, isso inclui os pedestres na brincadeira. Quando eu estava prestes a atravessar a rua hoje para chegar mais próximo do Grand Palace (que por sinal, continua com uma parte fechada à visitação), um militar que estava fazendo a guarda simplesmente mandou que eu sentasse no chão. Gelei, achando que eu tinha feito alguma coisa muito errada, mas aí eu olhei em volta e vi que estava todo mundo sentadinho. Sentei também, fazer o quê? Uns minutos mais tarde, passou o carro onde estava o príncipe, e logo depois fui liberada para continuar meu caminho.

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Só mais alguns detalhes sobre esse episódio: 1)sentar com os pés apontando para frente é desrespeitoso, então o guardinha chamou a minha atenção para que eu sentasse com as pernas cruzadas “de chinês”; 2) eram três da tarde, um sol escaldante, abri a sombrinha para me proteger, mas também não podia; 3) óbvio que na hora de levantar, uma das minhas pernas estava dormente e quando o guarda percebeu (já que eu estava dando umas batidinhas com o pé no chão), ainda riu da minha cara, pode isso, Arnaldo?

Mas nem tudo são lágrimas, pelo menos não pra mim que estou visitando vários lugares sem precisar pagar pela entrada (viva a benevolência real!) e ainda descolei uma aguinha gelada “de grátis” numa tarde escaldante enquanto esperava o príncipe passar.

Cenas da uma praia malaia

Todo mundo que me conhece pelo menos um pouquinho sabe que eu não sou do tipo de pessoa que adora praia. Alguns consideram até um sacrilégio uma carioca dizer uma coisa dessas, mas desde que a construção de castelinhos de areia perdeu a graça, praias deixaram de ser um programa que eu aprecie muito ou faça com frequência.

Só que depois de dois meses de viagem, praticamente só pegando temperatura digna de verão brasileiro, geralmente em cidades com bastante concreto, e ostentando marcas ridículas de sol do short e da mochila, até eu estava doida para ir à praia.

Ainda que não seja um destino turístico mega famoso no Sudeste Asiático, a Malásia tem um litoral extenso com praias belíssimas, então decidi que iria aproveitar meus últimos dias no país antes de ir para Bangkok numa ilha chamada Langkawi.

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Uma das ilhas menores em Langkawi

No entanto, há algo curioso na Malásia em se tratando de religião: apesar de também ser o lar de cristãos, hindus, budistas e outros, a maioria da população do país é muçulmana. Sim, eu já tinha notado a grande quantidade de mulheres usando o hijab (o lenço na cabeça) e algumas até de burca nas ruas da capital Kuala Lumpur, mas só na ilha tive a real dimensão de como a religião afeta a vida delas (ou não).

Fui fazer um passeio de barco que fazia algumas paradas pelo caminho e, na última delas, paramos numa pequena ilha onde tínhamos 1 hora para aproveitar. Com o sol a pino, um calor opressor e uma praia de águas calmas e transparentes, tudo que eu queria era cair no mar. Mas ao olhar em volta, eu congelei. Só havia mulheres muçulmanas ao meu redor, todas com roupas de mangas e calças compridas, todas usando o hijab, algumas até de meia para não deixar os pés de fora. E eu de shortinho e regata doida para ficar só de biquíni.

Depois de alguns minutos de tensão andando um pouco e aproveitando para tirar umas fotos, resolvi me afastar da parte com a maior concentração de pessoas, e fazer “exposição da figura” mesmo (referência só para quem assistiu “O Clone”). Entrei o mais rápido possível na água e de lá pude ver que, apesar dos homens estarem de boas de bermuda, as mulheres não deixam que a imposição do vestuário impeça que elas curtam a praia. Algumas ficavam sentadas na areia, outras molhavam o pé na beirada, tinha também as que estavam nadando no mar, todas cobertas, mas ainda assim, aproveitando o belo dia na praia como eu.

Para aliviar o meu desconforto inicial, mais barcos atracaram na pequena ilha trazendo outras ocidentais de biquíni, e eu pude apreciar o restante no meu tempo lá me preocupando mais com a possibilidade de um macaco roubar minha mochila do que com o fato de eu estar ofendendo alguém com o meu singelo traje de banho.

Moral da história: não importa a sua religião ou a sua roupa, todo mundo pode curtir um dia de praia. Acho que pelo menos nisso, os cariocas da gema estão certos, e até eu que sou “da clara” tenho que concordar.

 

Chamando o Raul

Spoiler alert: Não leia esse post se você acabou de comer, está comendo, ou está pensando em comer alguma coisa daqui a pouco. Sério, melhor não. Depois não diga que eu não avisei.

Eu nunca tive problemas de enjoar no mar. Desde criança, sempre andei de barco, algumas vezes em situações pouco seguras (para ser gentil), e nunca tinha passado mal numa embarcação, mas para tudo há uma primeira vez na vida, não é mesmo?

O tempo em Penang, cidade onde eu estava havia alguns dias, não estava dos melhores. Chuvas torrenciais sem hora marcada todo dia. Às vezes de manhã para fazer você repensar na programação do dia, às vezes a tarde para fazer você voltar correndo mais cedo para o hostel, e até de madrugada para não te deixar dormir. Como o tempo simplesmente não melhorava, decidi ir para meu próximo destino, uma ilha quase na divisa com a Tailândia.

Indo de uma ilha para outra, nada mais natural que o meio de transporte preferencial fosse marítimo, logo não pensei duas vezes e comprei minha passagem de ferry para Langkawi. Ferry nada mais é do que uma barca, aquela embarcação grande, lenta e sem muita oscilação que todo carioca já pegou um dia para chegar em Niterói (ou na Ilha Grande de férias). Para que se preocupar então, certo?

Acontece que o que eu peguei definitivamente não era uma barca (apesar do que estava escrito no meu ticket). Era praticamente uma lancha bem grande e que se deslocava bem rápido. Super segura e confortável, é verdade, com ar condicionado e grandes janelas de vidro para a água não entrar, mas ainda assim não era bem o que eu estava esperando.

Percebi que em todas as fileiras, pendurados junto com os coletes salva-vidas, haviam saquinhos plásticos, e juro que eu achei exagero. Mesmo depois de começarmos o trajeto, e o balanço já começou logo no início, eu ri internamente quando o cara sentado na minha frente levantou para garantir um saquinho pra ele e esnobei o Dramin que eu tinha dentro da bolsa achando que iria ficar tudo bem.

Não ficou tudo bem. Depois da primeira hora de viagem eu estava um pouco enjoada, mas segurando a barra com dignidade, mesmo assim achei melhor assegurar um saquinho amigo para mim só por precaução. Estava tudo sob controle, até que a música que eu estava ouvindo para me distrair acabou e naqueles segundos de silêncio antes da próxima faixa começar a tocar, eu ouvi alguém vomitando, e a “Síndrome do Vômito Solidário” entrou em ação.

Lá se vai todo o meu almoço (poxa, eu estava tão feliz por ter comido direitinho e tão barato)! E nesse momento começa uma luta dificílima para botar tudo pra fora dentro do saquinho enquanto o barco continua balançando loucamente, em meio a uma sinfonia de pessoas de todas as idades, credos e nacionalidades chamando o Raul. Podem me dar uma medalha por não ter respingado em nada!

Foram ao todo três horas de viagem inesquecíveis, mas a prova de que eu não fiquei traumatizada é que no dia seguinte, adivinha qual foi o primeiro passeio do dia? Ir de barco conhecer as ilhas menores ao redor, claro! Mas dessa vez o mar estava calmo e o café da manhã pôde ser digerido com sucesso.

(Des)fazendo planos

Planos são ótimos. Eu amo fazer planos. Geralmente quando viajo, eu saio de casa com a programação de cada dia organizadinha com direito da planilha no Excel e tudo, mas nem sempre as coisas saem exatamente como planejado. Na verdade, RARAMENTE as coisas saem exatamente como o planejado quando se está viajando, mas em Kuala Lumpur eu com certeza bati o recorde de sair do roteiro planejado.

 

Tudo que podia dar errado já tinha acontecido naquele dia. Eu perdi a hora para acordar. Quando já estava pronta para sair, tive que voltar e trocar de roupa porque a recepcionista do albergue falou que de blusa sem mangas eu provavelmente seria impedida de entrar no templo para onde estava indo. Cheguei na estação com o trem partindo e tive que esperar 45 minutos pelo próximo. Finalmente chego no templo e ele está sendo restaurado, tudo em obras, e nas fotos só aparecem os andaimes. A mesma cena do trem partindo acontece para voltar e perco mais 45 minutos esperando na outra estação, só que dessa vez morrendo de fome porque não tive coragem de comer nada nas barraquinhas em volta do templo. Depois disso tudo, só consegui almoçar e voltar para o hostel para descansar.

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Tanta foto maravilhosa que eu podia ter tirado se não fossem esses andaimes malditos…

Mesmo depois de uma soneca, não estava a fim de fazer nada a noite, então bolei um novo plano: jantar um sanduíche rápido no Subway ali na esquina e voltar, tomar um banho e colocar o pijama para ver o filme que a Netflix fez questão de me mandar um email avisando que tinha entrado na programação. Que plano maravilhoso! Mas acontece que as coisas não são tão simples quando você está hospedada num albergue, rodeada de pessoas sociáveis de todos os lugares do mundo.

Quando estava saindo, um pessoal com quem eu troquei umas duas palavras no dia anterior me chamou para ir comer com eles. Como eles iam comer comida indiana (que eu nunca tinha provado), acabei decidindo ir junto. Estava ótimo o tal do butter chicken e o povo era super bacana, tão bacana que eles decidiram ir para outro lugar beber alguma coisa e, mais uma vez e mesmo não bebendo, eu resolvi acompanhar porque, na minha cabeça, eles iriam para algum barzinho continuar o papo. Corta a cena.

De repente estou eu, quase trinta anos na cara, vestindo short, camiseta e tênis de trilha, numa boate, rodeada por europeus muito animados, está tocando “Ai, se eu te pego” e a única coisa que passa pela minha cabeça é “Como cargas d’água eu vim parar aqui?!?” Sério, alguém me explica, porque já faz quase uma semana desse episódio e a sequência de eventos ainda não faz sentido pra mim.

Eu só queria ser antissocial e ver um filminho na Netflix, mas acabei socializando com meio mundo numa boate com direito a musica ruim e indianos fazendo coreografia, e chegando de volta no hotel às três da manhã. Planos, às vezes eles dão certo, às vezes não…

 

Pontos de vista diferentes

Outro dia, conversando sobre comida com o gerente do albergue onde estou hospedada, ele me perguntou se comíamos arroz no Brasil. Eu disse que sim, era super normal, mas que era totalmente diferente do jeito que eles preparam aqui na Ásia. Expliquei que o nosso arroz é temperado com alho e cebola e que ele não é assim grudadinho, ele é bem mais… Nisso, ele me interrompeu e disse “Seco?”.

É, bem, eu nunca usaria essa palavra para descrever o arroz que a gente come todo dia (aliás, saudades de comer arroz assim todo dia e de garfo), mas em comparação com a preparação deles, faz todo sentido. E aí fica fácil de entender que outras coisas que eu antes achava super estranhas, simplesmente não faziam sentido sob o meu ponto de vista.

Por exemplo, eu sempre ri e fiz piada ao ver esse tipo de aviso em banheiros por aí (foco na terceira ilustração):

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“Gente, mas quem iria pensar em fazer isso no vaso?” “Não pode ser coisa de gente normal.” “É sério que precisa pedir para não fazerem isso?”

Só que tudo fez sentido pra mim depois que eu me vi forçada a usar o banheiro asiático. É essa a posição que eles fazem para ir ao banheiro todos os dias. Privada é uma coisa que se tem em hotéis e lugares frequentados por ocidentais. Pelo menos na China é assim, e pelo que tenho lido, é o mais comum em vários outros países asiáticos.

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O tão temido squatting toilet

E vou dizer, não é tão ruim assim. Aliás, para nós mulheres, é até bem mais fácil do que aqueles malabarismos que estamos acostumadas a fazer para não sentar em privadas duvidosas. Juro que não saí do banheiro toda respingada de xixi e agora já estou até achando normal, mas é o máximo que eu consigo, nada de número 2 (apesar dos relatos dizerem que a posição facilita bem a vida nesse departamento).

E só mais um parêntesis sobre o banheiro, achar um desses aí é quase lucro. Tem um outro bem pior no qual as “necessidades” do coleguinha ao lado escorrem por baixo de onde você está abaixado, e raramente portas individuais estão envolvidas.

E ainda que as diferenças entre oriente e ocidente possam parecer grandes, mesmo entre nós temos alguns costumes bastante únicos. A prova disso é que umas americanas com as quais conversei ficaram CHO-CA-DAS quando eu contei que no Brasil a gente usa abacate para fazer vitamina (com açúcar). Para elas, abacate é coisa que se coloca no sanduíche e na salada (com sal e azeite).

Fazer o quê? O jeito é aproveitar que você está no quadrado do coleguinha para tentar coisas diferentes. Vai que você descobre que abacate é muito melhor com sal? Ainda não provei (tirando no guacamole), mas o que posso dizer por enquanto é que no quesito arroz, prefiro o nosso.