Achei que as coisas seriam diferentes

Eu achei que as coisas seriam diferentes na quarentena. Achei que passando mais tempo em casa, eu finalmente conseguiria fazer várias coisas que eu estava sempre deixando para depois, seja por falta de tempo, ou pelo cansaço. Mas quanto mais tempo passamos vivendo sob a sombra do coronavírus, mais eu percebo que a projeção de produtividade era pura ilusão.

Eu achei que estaria animadíssima planejando as minhas próximas viagens. Achei que estaria usando o meu tempo me afundando em blogs e livros, fazendo contas e roteiros, discutindo possibilidades de visitas à amigos. Mas a realidade é que se eu sequer tento começar a ver essas coisas, me sinto deprimida pela imprevisibilidade do futuro. Não se sabe quando viagens voltarão a acontecer e tenho quase certeza de que a partir de agora irá haver um controle muito maior em relação à circulação de pessoas pelo mundo, então qualquer plano que eu fizer pode acabar sendo inútil.

Eu achei que estaria fazendo exercícios regularmente. Para ser honesta, até tive algum sucesso em manter uma rotina no início da quarentena, mas com a volta ao trabalho no escritório, isso foi por água abaixo, e como uma das minhas maiores motivações em me exercitar está ligada à viagens, é ainda mais difícil ter vontade de levantar do sofá para botar o corpo em movimento.

Eu achei que estaria voltando a estudar chinês a todo vapor. Parei ano passado para me dedicar a um outro curso com a promessa para mim mesma que voltaria logo após o feriadão do ano novo lunar. Não só não retomei as aulas (que poderiam estar acontecendo online), como dois meses depois da minha previsão de volta ainda não abri o livro nem mesmo uma vez, e a cada dia sinto o pouco que eu aprendi lentamente escapando da minha cabeça.

Eu achei que estaria me aprimorando profissionalmente. Estava com vários planos para a promoção e a mudança de unidade na escola, com uma lista gigante de vídeos de palestras para assistir, tópicos para estudar, e livros para me aprofundar em assuntos pedagógicos, que no momento estão abandonados na estante ou no meu HD esperando o momento em que eu vou ter disposição de pegá-los novamente.

E falando em livros, eu achei que estaria lendo como se não houvesse amanhã. Achei que já teria ultrapassado facilmente minha meta de leitura do ano e que teria finalmente concluído vários títulos que a muito tempo estão esperando para serem lidos no meu Kindle. Na realidade, desde que tudo começou para mim a mais de 80 dias atrás, só consegui terminar dois livros curtos, e agora tenho muita dificuldade em focar e engatar no terceiro.

Queria terminar esse texto num tom otimista, mas acho que não será possível. Enquanto as coisas parecem começar a melhorar na China, minha motivação e capacidade de concentração parecem piorar com a situação do resto do mundo. Só posso então torcer para que as coisas melhorem também em outros lugares, assim quem sabe minha ansiedade não se aquiete e eu consiga fazer outra coisa com o meu tempo livre além de surtar com o que eu leio nas redes sociais.

Uma carta do futuro

Queridos amigos que residem em terras tupiniquins,

Falo com vocês diretamente do futuro. Enquanto aí vocês mal completaram uma semana de isolamento social, eu aqui no Reino do Meio já passei da marca dos 50 dias vivendo à sombra da epidemia, e na posição de veterana da quarentena, acho que algumas observações podem ser úteis.

Quem me acompanha nas redes sociais anda tendo a impressão de que as coisas estão voltando ao normal. Tenho saído de casa umas duas ou três vezes por semana,  peço comida no delivery com regularidade, e de umas 2 semanas para cá tenho mencionado como o movimento geral de gente na rua tem aumentado. Mas acho que o desejo de ver que a situação está sob controle aqui está fazendo muitas pessoas ignorarem o que eu posto sobre os controles que ainda estão vigentes, por isso quero deixar tudo bem explicadinho.

Por aqui os prédios residenciais continuam impedindo a entrada de pessoas de fora. Isso significa que o entregador não pode trazer a comida na sua porta, mas também que você não pode receber pessoas que não são moradoras. Uma conhecida foi barrada essa semana mesmo ao tentar visitar uma amiga dela. Sigo torcendo para que nada quebre dentro de casa pois sei que seria um problema para trazer alguém para concertar.

Muitas lojas e prédios comerciais seguem fechados. Inclusive o prédio onde fica a filial da escola onde eu trabalho continua fechado. Não temos ainda uma data divulgada para a volta às aulas em Beijing, mas já começou a se especular que isso deve acontecer no final de abril. Ainda assim, minha escola está considerando que muitos pais irão querer continuar com as aulas online por algum tempo.

Com relação aos restaurantes, muita coisa mudou desde o início da epidemia. Alguns continuam fechados, outros só estão fazendo entregas, e os que estão abertos hoje não só tem um limite de pessoas e tem que manter uma distância mínima entre as mesas, como também não permitem grupos. Na semana passada tivemos que cancelar uma comemoração de aniversário porque o local só permitia que duas pessoas sentassem em cada mesa e éramos um grupo de 5.

Aqui pedem que todos usem máscaras. As pessoas do centro comunitário, que batem aqui na minha porta pelo menos uma vez por semana para confirmar meus dados, chegam a perguntar se os moradores tem máscaras pois eles podem ajudar a arrumar se necessário. Tenho certeza que alguns estabelecimentos recusariam a minha entrada se estivesse sem máscara, apesar de não ter pago para ver em nenhum momento.

O controle de temperatura é constante. Qualquer lugar que você for, no mercado, numa loja, num restaurante, até no parque, existe um guarda na porta empunhando um termômetro e ele só deixará você entrar se a sua temperatura estiver abaixo de 36.8°C. Outro dia eu contei, tive a minha temperatura checada seis vezes ao todo.

Mas o que mais impressiona no momento é como estão tratando as pessoas que chegam na China. Agora que os casos de transmissão doméstica estão zerados (pelo menos em Beijing), o grande problema tem sido os casos vindos de outros países. Depois de alguns dias com esse número só aumentando, passaram a testar todos os passageiros. Qualquer pessoa chegando é obrigada a ficar em quarentena em um local designado pelo governo (e pagando por isso) por 15 dias sem poder sair para nada. Depois anunciaram que os voos internacionais seriam desviados para outras cidades e agora acabaram de anunciar que a partir de amanhã (28 de março) estrangeiros estão proibidos de entrar no país por tempo indeterminado.

Resolvi escrever isso tudo não por querer criar pânico, mas para alertar. Sim, as coisas parecem estar sob controle aqui e até Wuhan está aliviando as regras, mas isso não significa que elas não existem. E é justamente porque se fez (e ainda se faz) isso tudo que houve o controle e agora já podemos respirar aliviados (ainda que de máscara e a mais de um metro e meio de distância de outra pessoa).

Por isso, amiguinhos, eu venho aqui pedir: se puder, fique em casa. Eu sei bem que depois que passam os primeiros dias e tudo que precisava ser faxinado já está brilhando, as coisas começam a ficar mais difíceis. Você já está até sentindo falta de reparar na roupa estranha das pessoas na rua e de apreciar a paisagem na janela do ônibus, mas aguente firme.

Falo de um futuro onde a esmagadora maioria das pessoas obedeceu às restrições severas impostas pela quarentena, e por causa disso, agora começamos a ver a luz no fim do túnel. Torço para que em breve vocês no Brasil possam viver esse futuro de esperança aí também.

Sufocada por Sandy & Junior

Outro dia, num episódio de quase desobediência civil, eu e minha colega de apartamento chamamos uma amiga que está enclausurada sozinha no apartamento dela a dias para vir jantar aqui em casa. Três pessoas num mesmo cômodo? Gente de fora entrando no prédio? Realmente a palavra rebeldia ganhou novas definições nesses tempos de coronavírus.

Conversa vai, conversa vem, começamos a falar de shows. Eu posso não viver lá uma vida muito cheia de emoções fortes, mas eu posso dizer que minha paixão por shows de rock me rendeu muitas histórias pra contar. Tirando as ocasiões em que eu achei que estava partindo dessa para uma melhor dentro do transporte rodoviário coletivo carioca (o que acontecia numa frequência aproximada de uma vez por semana), acho que a maioria das outras vezes que eu temi pela minha vida aconteceram em shows. Ou seja, garanti o entretenimento da noite ao compartilhar meus infortúnios musicais.

Um bom exemplo disso é o episódio do meu primeiro grande festival. Eu gosto de tirar uma onda dizendo às pessoas que eu estava presente do Rock in Rio de 2001. Para manter o status alcançado, no entanto, eu tenho que omitir a parte em que eu estava lá no dia da Britney Spears e ainda por cima acompanhada da minha mãe. Não, eu não assisti a avalanche de garrafas plásticas que acometeu o Carlinhos Brown. Não, eu não vi o guitarrista do Queens of the Stone Age adentrar o palco como veio ao mundo. No dia em que eu estive presente não teve arrastão nem rodinha punk, mas ainda assim, em certo momento eu achei que “ia dar ruim”, como nós cariocas gostamos de dizer.

Eis então que lá estou eu, contente e serelepe curtindo pacas o show de Sandy & Junior quando, no fim da tarde eles começaram a tocar “Vâmo Pulá”. No início, nada de mais, todo mundo feliz e cantando junto, como era de se esperar. O problema foi quando chegou o refrão…

Seguindo as instruções dadas por Junior Lima, toda aquela multidão presente na Cidade do Rock começou a pular loucamente, e tudo estaria bem se o cenário fosse um pouco diferente. Mas era um dia quente e seco, depois de uma semana de dias quentes e secos, e é bom lembrar que depois de alguns dias de festival rolando, a grama que devia cobrir o terreno já estava reduzida a pequenas e raquíticas ilhas rodeadas por chão de terra. 

Imediatamente após a primeira sílaba do refrão uma nuvem começou a se formar sobre o público. Os milhares de pés batendo repetidamente naquele chão seco fez subir uma nuvem de poeira densa, e além de não conseguir enxergar nada na minha frente também era muito difícil respirar. O tempo da segunda estrofe da canção não foi suficiente para dispersar completamente a poeira, e na segunda vez que a música mandou a plateia pular foi ainda pior. Eu só queria que aqueles três minutos de música acabassem o mais rápido possível.

Um bom tempo (e alguns acessos de tosse) depois, recobrei as energias e continuei curtindo o festival, ainda que pudesse sentir a camada de poeira espessa que grudou em mim. Os efeitos dessa cena ainda perduraram alguns dias, e eu era lembrada dos momentos de pânico em que não conseguia respirar toda vez que eu assoava o nariz ou limpava o ouvido com cotonete. Claro, tomei uma raiva completamente justificável daquela música e desenvolvi uma predileção por festivais que envolvessem chuva e lama.

Acho que a minha história teria tido uma recepção melhor se os ouvintes soubessem o que era Rock in Rio, Sandy & Junior, e “Vâmo Pulá!”, mas quando você adora contar um causo e está trancada em casa a mais de duas semanas, tem que aproveitar toda e qualquer oportunidade que se apresente para contar uma boa história.

A vida aqui dentro

Hoje fez um dia lindo. Mesmo com a temperatura muito próxima de zero graus, a poluição baixa e o céu azul praticamente me forçaram a botar o nariz para fora de casa. Mas veja bem, um nariz devidamente protegido por uma máscara capaz de filtrar 95% das partículas do ar porque eu não sou boba nem nada. Sair de casa para ir ao supermercado e a padaria normalmente não seriam interessantes o suficiente para que eu sentasse e escrevesse sobre isso, mas em tempos de surto de infecções por coronavírus na China, qualquer oportunidade de ser por a cara no sol deve ser aproveitada (e apropriadamente registrada).

Já fazia quase uma semana que eu não saia de casa e a minha lista de atividades diárias na quarentena anda ficando um pouco repetitiva. Eu leio, vejo filmes, maratono séries, cozinho (sim, até isso), ouço podcasts, limpo a casa (que aliás nunca esteve tão limpa), dou aulas online, organizo os armários, faço listas, estudo, tiro sonecas, faço skincare, e repito tudo de novo, talvez numa ordem diferente só para dar uma diferenciada.

A vida em Beijing segue em frente, ainda que com ruas semi-desertas em plana hora do hush e quase todo mundo trabalhando de casa. As únicas coisas em falta nos mercados e lojas são máscaras de proteção e álcool gel, e em qualquer lugar que você for entrar vão checar a sua temperatura para se certificar que você não está doente. Alguns prédios estão sendo bastante rigorosos e não só barram as pessoas de fora como também só permitem que uma pessoa de cada apartamento saia de cada vez e apenas uma vez por dia. Mas onde eu moro as coisas não são tão ruins, tanto que uma amiga passou aqui anteontem para deixar umas máscaras e ninguém está controlando as minhas saídas (ainda que eu esteja seguindo as orientações do governo e saindo o mínimo possível).

Essa temporada confinada é a prova definitiva de que eu não aguentaria muito tempo no BBB sem surtar. E como há males que vem para bem, ela me fez ter tempo e disposição suficientes para resgatar meu querido blog das profundezas da inatividade onde ele se encontrava pelos últimos dois anos. Torço para que o coronavírus deixe a gente em paz logo e eu possa ir ao mercado sem máscara e sem peso na consciência em breve, mas torço também que eu consiga continuar arranjando um tempinho pra escrever mesmo que esteja um dia lindo lá fora.

 

O caso do rato

É inegável que morar sozinha tem seu lado bom, mas às vezes a gente não consegue parar de pensar na parte nem tão legal assim. É a geladeira que não se enche sozinha, é o milagre da multiplicação da roupa suja, é não ter ninguém pra matar a barata. Mas falando em fauna que teima em te visitar, a barata pode ser o menor dos seus problemas.

Outro dia um amigo meu chegou em casa após um dia cansativo de trabalho e se deparou com um rato de proporções bastante avantajadas passeando pelo seu quarto. Depois de horas de perseguição que resultaram em um roedor entocado em algum lugar daquele apartamento e um inglês exausto, o meu amigo desistiu da tarefa e foi dormir sentado no vaso sanitário trancado no banheiro.

Para resumir a história, foram necessários 3 chineses, dois dias e uma vassoura, mas o rato foi finalmente capturado e o inglês entrou praticamente em coma e dormiu por quase 20 horas seguidas. Pelo menos alguém estava dormindo…

Depois de ouvir sobre o rato num almoço casual com o pessoal do trabalho, eu confesso que fiquei um pouco paranoica. Eu moro no mesmo condomínio que o inglês e se há ratos rondando o apartamento dele, as chances são grandes de que eles apareçam na minha área também. Cheguei do trabalho e, só por desencargo de consciência, vasculhei cada cantinho da minha casa a procura de algum rato que poderia estar se aproveitando do meu lar quentinho, mas não achei nada.

Eis então que no meio da madrugada, desperto do meu sono com um barulho dentro do quarto. “Só pode ser um rato”, eu pensei, e me coloquei novamente atrás do roedor de lanterna na mão às 4 da manhã, arrastando o rabo do meu pijama de dinossauro pelo chão frio. Até que eu enfim achei o culpado. Não era um rato, mas o ganchinho de sucção que eu havia prendido na parede que se soltou.

Ainda estou na dúvida se é melhor ter certeza que se matou uma barata sozinha, ou ter uma vida solitária assombrada pelo fantasma do rato imaginário. Se algum dia eu voltar a ter uma noite de sono tranquilo, eu aviso.

O caso (ou não) do Tinder

Um belo dia enquanto eu estava em Budapeste o Tinder foi instalado no meu celular. Não por mim, mas por uma amiga maltesa meio louca depois de muitas taças de vinho nas ideias. Nas ideias dela, não nas minhas. Se bem que onde eu estava com a cabeça quando fui ao banheiro e deixei meu celular que nem senha de bloqueio tem dando sopa em cima da mesa? É claro que quando eu voltei, a mesa inteira estava mobilizada em montar o meu perfil no aplicativo que, segundo eles, mudaria o meu eterno status de encalhada em pouco tempo.

Para falar a verdade, depois disso o app ficou meio esquecido no meu telefone por alguns dias. Eu tinha acabado de voltar a viajar em ritmo frenético de mochileira e, além de preferir passar o meu tempo explorando as cidades que eu estava conhecendo do que explorando as opções de solteiros disponíveis na área, eu também iria ficar poucos dias em cada lugar.

Depois desse período inicial de inatividade eu confesso que a curiosidade bateu e eu até consegui trocar umas palavras com uns caras, mas nunca encontrei com ninguém e meu telefone, que não é nenhuma Brastemp (tem que ser meio velho pra pegar essa referência, mas eu nem ligo), logo começou a reclamar que não havia espaço na memória, e eu, obrigada a deletar os aplicativos que eram menos úteis, acabei me desfazendo do Tinder antes que ele tivesse de fato mudado a minha vida.

Só que aí, cá estou eu em outro país onde eu não conheço praticamente ninguém. Meu ciclo de amizades se resume basicamente aos colegas de trabalho que também são praticamente meus vizinhos. Tem dias que 90% das minhas interações sociais se resumem a ensinar o som das vogais para crianças chinesas de 6 anos.

“É ótimo pra fazer networking” . “Melhor maneira de sair se você não conhece muita gente”. OK, depois de alguns argumentos contundentes fui convencida pela inglesa com PhD em mudar de país. E na segunda atitude que não faz o menor sentido tomada nesse texto, dessa vez eu mesma baixei o tal do Tinder por livre e espontânea vontade.

Mais uma vez, depois de algum tempo relegado ao ostracismo, num dia de folga cinzento e solitário, resolvi que era hora de testar a eficácia do troço. Se fosse uma coreografia de lambaeróbica, eu teria me chocado com alguma parede de tanto que eu joguei pra esquerda. Em aplicativos de relacionamento ou na vida real, a minha seletividade é a mesma e, segundo algumas pessoas, ela é alta até demais.

Depois do que pareceu um desfile sem fim de gente estranha até mesmo para os meus padrões, enfim achei alguém que me pareceu interessante. Li a descrição e lá estava escrito que o cidadão gostava de rock, pontos pra ele. Passando pelas fotos vi que o cara estava numa banda, aí sim! Temos um candidato! Joguei pra direita e BINGO, deu match!

Começamos a conversar e ele parecia uma pessoa bacana até que fez a fatídica pergunta: “Mas você ta vindo pra Berlim quando?”. Oi? Acontece que com a minha falta de familiaridade com o tal do Tinder, eu acho que não marquei nas configurações a distância das pessoas que queria conhecer, ou então o aplicativo deve ter salvo alguma coisa de quando eu ainda estava na Europa, eu só sei que o troço estava me mostrando gente de tudo que era lugar, incluindo da só um pouco distante Alemanha.

Depois de explicar a confusão geográfica para o meu novo contatinho alemão, nos despedimos com um amistoso “qualquer coisa, manda uma mensagem se estiver por aqui”. Não que eu esteja planejando voltar na Alemanha tão cedo, nem que ele esteja pretendendo fazer uma visita a China num futuro próximo, mas é sempre melhor cobrir a decepção com uma camada de polidez.

Eu até acredito nessas pessoas que saem toda semana graças ao Tinder e similares e às vezes até acham o grande amor da vida por lá, mas talvez essa tática não funcione muito bem pra mim. Acho melhor usar o espaço precioso na memória do meu telefone com um aplicativo de tradução e continuar a aproveitar Pequim sozinha mesmo.

Os amigos e eu

Se eu disser que eu gosto muito de Friends, estarei subestimando o tamanho do meu amor por este programa de TV. Toda vez que alguém elogia o meu inglês, eu assumo que a culpa é de Friends, e quando eu finalmente tive condições de fazer a minha primeira viagem internacional da vida, eu fiz as malas e parti pra Nova York.

As tardes da minha adolescência nas quais eu fiquei assistindo às reprises que passavam ad infinitum na TV por assinatura, fizeram não só com que eu praticasse as minhas habilidades linguísticas e desenvolvesse esse sonho de conhecer a Big Apple, mas também serviram para que eu me sentisse parte do grupo e me identificasse com cada um dos personagens, mesmo que mais com uns do que com outros.

A Phoebe era a pessoa que eu queria ser. Apesar do passado conturbado e da infância difícil, ela tem uma vida adulta ótima! Ela tem um emprego pouco convencional que a faz feliz, na maior parte do tempo não divide apartamento com ninguém, usa seus talentos artísticos para se divertir, tem o guarda-roupa mais legal, tem os namorados mais bacanas/estranhos (gosto não se discute amigos!) e ainda acaba a história com o Paul Rudd! Mas o grande ponto de identificação comigo era ser a amiga que mora longe. Só quem é a pessoa que não mora no mesmo bairro do restante do clã sabe como é isso.

Eu sempre me identifiquei muito com a Mônica. Problemas com os pais aparte, eu também sofri bullying quando era criança por causa do peso (só que era por ser magra demais), eu também tenho uma tendência excessiva à limpeza e a organização, e eu também enfrento problemas com o meu cabelo em ambientes de umidade excessiva. Só me falta o talento culinário (quem sabe um dia eu chego lá?).

Confesso que nunca gostei muito da Rachel. Inclusive, acho que parte do ódio que eu desenvolvi pela personagem acabou contaminando um pouco a minha impressão sobre a Jennifer Aniston. Mesmo com aquela história toda de superação e descoberta da independência, eu só consigo simpatizar com ela naquele episódio em que a personagem adota um gato Sphynx e sofre bullying por isso, e mesmo assim, ela joga a minha simpatia no lixo ao se desfazer do gato por causa da pressão social.

Por mais que eu odeie admitir, também tenho um pouco de Ross em mim. Nada da coisa do ciúme doentio (aliás, o casal Ross+Rachel me irritava desde o início), mas a tendência a se estender no discurso sobre um assunto cientifico que não interessa a mais ninguém eu tenho um pouco. Aproveito para pedir desculpas a todos os amigos que me aturaram durante a faculdade de Biologia, especialmente durante a fase da caneca de plástico que me acompanhava para todos os lugares.

Por acaso existe alguém no universo que não quisesse ser amigo do Joey? O cara é bacana, engraçado, cheio dos contatos televisivos, curte animais, registra todos os momentos em viagens, é seguro o bastante sobre a sua sexualidade para usar batom azul e tirar sonecas de conchinha com amigos homens, se esforça para aturar a namorada do melhor amigo mesmo não suportando ela. É tanta qualidade que a gente até releva a coisa dele não dividir comida.

E aí tem o Chandler. A pessoa que um monte de gente acha que é gay só porquê ele não está constantemente acompanhado. A pessoa que decide mudar de carreira. A pessoa que passa a vida fazendo piada como forma de esconder a sua indisponibilidade emocional. Qualquer semelhança com essa que vos fala é mera coincidência.

E tudo isso foi só pra dizer que, sabe como é, eu sou meio Chandler. Tive que dar essa volta toda pra dizer que ter um blog é mais difícil do que parece, principalmente pra mim que prefiro contar 50 piadas do que falar de algo pessoal. Não acho que o Chandler era tipo de pessoa que teria um blog contando sobre a vida dele, e ainda assim, estou aqui. Talvez a gente não tenha tanto em comum afinal.

Coisas esdrúxulas acontecem na China

“Você está na estrada de novo?”. Recebi esse comentário numa foto que eu postei ontem, mas ele não foi o único. Durante as últimas semanas, tem sido comum que alguma variação dessa frase apareça num comentário quando eu posto alguma foto de terras indubitavelmente chinesas.

A resposta é que não, eu não estou viajando, eu estou morando em Pequim a um mês, e morar num lugar como a China é intensificar à quinta potência a probabilidade de que coisas esdrúxulas aconteçam. Sim, porque elas realmente acontecem todos os dias.

Por exemplo, estava eu andando tranquilamente pela rua a caminho de um templo escondido nos confins de um hutong caindo aos pedaços, achando que o máximo que poderia acontecer era eu me perder e nunca mais achar o caminho de casa. Como a rua era bem estreita, fui caminhando mais para o canto para não ser surpreendida por alguma moto ou bicicleta. Não, eu não estava com medo de ser assaltada, e sim de ser atropelada. Duas velhinhas vinham andando na direção contrária e como havia espaço de sobra, não me importei muito com elas enquanto eu parava para tirar uma foto da paisagem. Acontece que enquanto eu estava distraída tentando ajustar o foco, uma das senhorinhas desviou do seu caminho só para passar a mão em mim. Nada de cunho sexual, veja bem, ela só passou a mão no meu braço e riu pra mim porque provavelmente eu fui pessoa mais escura que ela já viu na vida.

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Foi por causa dessa foto que acabei sendo tocada por uma chinesa sexagenária

Também teve o dia em que eu fui almoçar num restaurante ocidental achando que a escolha facilitaria a minha vida, mas não foi bem isso que aconteceu. Mesmo com o cardápio em inglês e eu literalmente apontando o que eu queria, o pobre do garçom ficou tão desconcertado com o fato de eu não falar chinês que desistiu de me atender sozinho e pediu ajuda a uns outros clientes que estavam na mesa ao lado. Pelo menos a comida chegou sem problemas.

Mas nem sempre o tópico comunicação acaba em frustração (a rima não foi intencional, eu juro). Estava com umas amigas num parque e enquanto fazíamos um lanche, um pai acompanhado de seu filho de uns 10 anos de idade se aproximaram e sentaram no banco ao lado. O pai falava algumas coisas em chinês com o filho como se estivesse incentivando-o (para não dizer coagindo) a fazer alguma coisa. Até que o menino finalmente tomou coragem e comecou a conversar com a gente. O pai só queria que o filho praticasse um pouco de inglês com as ocidentais que estavam ali dando sopa. Aliás, eu daria 10 não só para o inglês dele, mas também para os conhecimentos em geografia, já que ele até sabia onde fica o Brasil.

O quesito fotográfico é sem dúvida um dos mais curiosos. Nesse tempo em que estive aqui já teve gente tirando foto minha sem pedir (em uma das vezes, com direito a flash), já teve gente tirando selfie num ângulo estratégico para que eu aparecesse no fundo, e já teve até a vovozinha que veio com um bebê no colo para tirar foto com o grupo de ocidentais que só estava esperando o metrô depois de um dia cansativo de trabalho.

Isso tudo e muito mais aconteceu em apenas um mês. Imagina só tudo que ainda pode acontecer em um ano?

Eu voltei

E eis que dez meses depois, eu voltei pra casa.

Foram dez meses de viagens intermináveis de ônibus, de medo de passar na fronteira de um país para o outro, e de carimbos no passaporte. Dez meses de diálogos com pessoas que não falavam a mesma língua que eu, de fingir que entendia o inglês dos asiáticos, e de aprender palavras em outros idiomas que duravam no máximo uma semana no meu cérebro. Dez meses de comida sem tempero, comida exótica, e comida deliciosa. Dez meses de muitas aventuras, muitos novos amigos, e nenhum arrependimento.

OK, talvez esse último item seja um exagero, claro que tiveram arrependimentos. Me arrependi de pedir aquele prato super apimentado na Tailândia que eu nem consegui terminar de comer. Me arrependi de não ter feito aquele trekking na Malásia por medo do tempo não firmar. Me arrependi de não ter comprado aquele livro em Praga porque achei que não ia ter lugar na mala.

Mas ao contrário do que muita gente achou, não me arrependi de ter chutado o balde e caído no mundo. Mesmo tendo voltado um pouquinho antes do que eu havia planejado inicialmente, foi tudo (meio que) friamente calculado.

E voltei e nada mudou. Minha irmã continua bagunçando a casa, meu pai continua incapaz de ligar o DVD sozinho, e minha mãe continua cozinhando maravilhosamente. As rolinhas continuam invadindo a casa para comer a ração do cachorro, e ainda é preciso fazer uma forcinha pra direita na hora de fechar a porta do armário.

Mas tudo isso não era mais suficiente, eu precisava de um pouco mais. Um pouco mais de aventura, de desconhecido, de desafio. E foi por isso que eu resolvi que ainda não era hora de voltar de vez. Era o momento apenas de rever os amigos e a família, fazer um carinho no gato, tirar a barriga da miséria com as comidinhas de mamãe, e ser a maluca que vai embora de novo.

Agora estou em Pequim onde, se tudo continuar dando certo, devo ficar por pelo menos um ano. Eu tenho outra cama, outra casa, outra rotina. Por enquanto ela me apetece, não sei quanto tempo vou levar para me cansar dela, mas quando até uma uma ao supermercado vira uma aventura, fica difícil imaginar que eu irei me cansar dessa vida num futuro próximo.

Uma lista importante

“O mochileiro é um viajante independente, que organiza suas viagens por conta própria, dando ênfase ao conhecimento, aventura e diversão. Geralmente, utiliza meios de hospedagens mais econômicos e costuma fazer viagens mais longas.” Ufa, acho então que faço mesmo parte do grupo, pelo menos segundo à Wikipedia.

A dúvida começou a pairar sobre a minha cabeça antes mesmo de por os pés na estrada. Durante as minhas intermináveis pesquisas internéticas, entre sugestões de roteiro no sudeste asiático e dicas para economizar na Europa, um tema com o qual eu esbarrei várias vezes foi “o que não pode faltar na mochila de um mochileiro de verdade” (ou qualquer coisa desse tipo).

Essas listas costumam ser meio redundantes, ou criativas até de mais. Afinal, quem viaja sem levar calcinha? Ou melhor, é realmente necessário ter vitaminas na mala para uma viagem de 15 dias?

Sei lá, vai ver que eu é que não sou uma mochileira “de verdade”. Se bem que se viver 10 meses exclusivamente com o conteúdo de uma mochila não é ser mochileiro, eu não sei o que é. E por me considerar parte do grupo sim, é que eu decidi fazer a minha própria lista, mas um pouco diferente, uma lista das coisas que você com certeza vai ter dentro da sua mochila durante uma viagem de longo prazo, mesmo que você não tenha muita certeza de como elas foram parar lá:

  • Um pé de meia avulso que teve seu par perdido por aí, mas que não foi jogada fora porque em algum momento outra meia vai ficar sozinha, e mesmo diferentes elas vão poder formar um par;
  • Uma peça de roupa rasgada/manchada mas que continua sendo usada como qualquer outra, porque se está mochila, tem que ter utilidade;
  • Uma peça que um dia já foi branca, hoje nem tanto, e se alguém falar alguma coisa a gente sai pela tangente dizendo que é off white e vai conversar com outro mochileiro amigo com uma blusa mais encardida que a sua;
  • Um peça de roupa bem típica que você dificilmente vai ter coragem de usar na vida real. Por exemplo, que atire a primeira pedra quem conseguiu sair da Tailândia sem ter comprado a calça de elefante;
  • Uma peça de roupa que não é sua. Pode ter vindo de brinde na leva que foi para a lavanderia, mas a gente nunca vai saber…;
  • Panfletos e ingressos de atrações turísticas nas quais você não foi;
  • Moedas de países onde você esteve meses atrás, que não servem para nada a não ser fazer peso, mas que a gente se recusa a dar fim porque vai ter que servir de souvenir já que você não comprou nem um imã de geladeira para guardar de recordação.

Às vezes, você só descobre que tudo isso estava na mochila ao finalmente chegar em casa e ter a dolorosa tarefa de desfazê-la. Às vezes, entre um destino e outro, num albergue de qualidade duvidável, você se pega com um desses itens na mão e decide se desfazer logo dele, afinal, espaço sobrando na mochila é tão desejável quanto café da manhã incluído na diária. Mas o que importa é que em algum momento, tudo isso esteve lá.

Fazer a blogueira de viagem viciada em listas dá mais trabalho que carregar por aí uma mochila com uns quilinhos a mais que o estritamente necessário. Mas ter uma desculpa para lembrar dos pequenos detalhes da viagem é tipo ter um Mastercard, não tem preço.