Pontos de vista diferentes

Outro dia, conversando sobre comida com o gerente do albergue onde estou hospedada, ele me perguntou se comíamos arroz no Brasil. Eu disse que sim, era super normal, mas que era totalmente diferente do jeito que eles preparam aqui na Ásia. Expliquei que o nosso arroz é temperado com alho e cebola e que ele não é assim grudadinho, ele é bem mais… Nisso, ele me interrompeu e disse “Seco?”.

É, bem, eu nunca usaria essa palavra para descrever o arroz que a gente come todo dia (aliás, saudades de comer arroz assim todo dia e de garfo), mas em comparação com a preparação deles, faz todo sentido. E aí fica fácil de entender que outras coisas que eu antes achava super estranhas, simplesmente não faziam sentido sob o meu ponto de vista.

Por exemplo, eu sempre ri e fiz piada ao ver esse tipo de aviso em banheiros por aí (foco na terceira ilustração):

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“Gente, mas quem iria pensar em fazer isso no vaso?” “Não pode ser coisa de gente normal.” “É sério que precisa pedir para não fazerem isso?”

Só que tudo fez sentido pra mim depois que eu me vi forçada a usar o banheiro asiático. É essa a posição que eles fazem para ir ao banheiro todos os dias. Privada é uma coisa que se tem em hotéis e lugares frequentados por ocidentais. Pelo menos na China é assim, e pelo que tenho lido, é o mais comum em vários outros países asiáticos.

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O tão temido squatting toilet

E vou dizer, não é tão ruim assim. Aliás, para nós mulheres, é até bem mais fácil do que aqueles malabarismos que estamos acostumadas a fazer para não sentar em privadas duvidosas. Juro que não saí do banheiro toda respingada de xixi e agora já estou até achando normal, mas é o máximo que eu consigo, nada de número 2 (apesar dos relatos dizerem que a posição facilita bem a vida nesse departamento).

E só mais um parêntesis sobre o banheiro, achar um desses aí é quase lucro. Tem um outro bem pior no qual as “necessidades” do coleguinha ao lado escorrem por baixo de onde você está abaixado, e raramente portas individuais estão envolvidas.

E ainda que as diferenças entre oriente e ocidente possam parecer grandes, mesmo entre nós temos alguns costumes bastante únicos. A prova disso é que umas americanas com as quais conversei ficaram CHO-CA-DAS quando eu contei que no Brasil a gente usa abacate para fazer vitamina (com açúcar). Para elas, abacate é coisa que se coloca no sanduíche e na salada (com sal e azeite).

Fazer o quê? O jeito é aproveitar que você está no quadrado do coleguinha para tentar coisas diferentes. Vai que você descobre que abacate é muito melhor com sal? Ainda não provei (tirando no guacamole), mas o que posso dizer por enquanto é que no quesito arroz, prefiro o nosso.

 

 

Eu e os outros ocidentais

Eu sou tímida pra caramba, tenho uma super dificuldade em fazer amizades assim do zero. Resultado: passei grande parte do meu tempo no Japão sozinha. Lá é muito fácil ser independente, chegar nos lugares sem a ajuda de ninguém, fazer tudo sozinho (mesmo sem falar japonês). Para não dizer que não fiz nenhum amiguinho, sempre que estava no albergue em Tóquio, conversava com o chileno do meu quarto (afinal, chilenos fazem amizade até com postes, né?), mas durante o dia, era cada um por si, fazendo o que bem quisesse.

Mas é claro que na China não é assim, e até o comportamento dos ocidentais é diferente por aqui, principalmente nas cidades menores. Rola quase uma necessidade de ajuda mútua, sabe? Só de se olhar na rua e perceber que você não tem olhinhos puxados, parece que a pessoa já quer dar um “oi”.

Em Pequim (e olha que era uma cidade grande), conheci um polonês que estava lá já a algum tempo a trabalho e não aguentava mais a China, nem nada relacionada a ela, tanto que acabamos jantando espaguete e falando sobre terremotos. Sem contar no grupo de mulheres completamente perdidas no metrô que, quando me viram, vieram direto pedir ajuda sobre qual trem pegar e só no meio da conversa se lembraram de perguntar se eu falava inglês.

Em Xian, em menos de cinco minutos de conversa com o americano com quem estava dividindo o quarto, ele me chamou para irmos juntos ver o exército de terracota no dia seguinte, além de me passar todas as dicas sobre Hong Kong.

Em Chengdu, estava pedindo informações sobre como chegar por conta própria no centro de pesquisa dos pandas na recepção do hostel e devia estar com uma cara meio preocupada enquanto ouvia a chinesa, porque um casal de habladores de español  (reconheci pelo sotaque, mas não sei de onde eram) que nunca tinha me visto antes fez questão de me tranquilizar e dizer que chegar lá era bem tranquilo.

Tiveram as americanas que conheci no trem a caminho de Luoyang. Elas estavam fazendo a viagem inteira com tudo organizado por guias, não precisavam nem pensar para escolher o restaurante onde iriam jantar. A única coisa que elas precisavam fazer sozinhas era pegar esse trem, e nossa senhora da internet, como elas estavam estressadas com isso. Acabamos passando a viagem toda jogando Uno e Adedanha (sim, ensinei e elas adoraram) e elas chegaram sãs e salvas na estação onde alguém esperava por elas com uma plaquinha.

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No trem com as americanas

E claro, teve o pessoal da trilha do Tiger Leaping Gorge. Afinal, depois de quase oito horas de caminhada com direito a subidas, descidas, precipícios, sol escaldante, chuva, e arco-íris, não tinha como não interagir com as pessoas que de qualquer jeito iriam dormir no mesmo quarto de albergue que você. E ainda tiveram mais algumas horas de caminhada no dia seguinte com cenas emocionantes de escada da morte, a ponte de madeira mais assustadora que eu já vi na vida, trilha escorregadia, e até um pulso quebrado. Depois de tudo isso, não tínhamos como não comemorar com um jantar descente (pelo menos os que não capotaram de cansaço).

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Entre mortos de cansados e feridos, salvaram-se todos

A China é um desafio para todo turista, principalmente para aquele que não quer (ou não tem dinheiro) para ter tudo facilitado por guias, mas isso não quer dizer que seja impossível, mesmo que de vez em quando você tenha que get by with a little help from your* friends (ainda que sejam amigos de cinco minutos).

Turismo e excursões

Viajar sozinha tem um pouco de tudo. Tem os dias em que você está se sentindo corajosa e aventureira. Pesquisa na internet, arranja um mapa, pega um ônibus normal com pessoas que estão indo trabalhar, se perde, pede informação para desconhecidos, e finalmente chega aonde queria, tudo por conta própria. Tem dias que você faz amizade no albergue e decide fazer a programação do dia em grupo, dividindo as responsabilidades, enquanto um está fazendo sinal para o táxi o outro está conferindo a localização no GPS. Mas tem dias que até o mais pão duro dos mochileiros pede arrego, não está a fim de trabalho, e paga por uma excursão com tudo incluído.

Com toda a minha restrição orçamentária e vontade de me virar sozinha ao máximo, até agora nessa viagem fiz esse tipo de tour duas vezes, e uma não poderia ter sido mais diferente da outra.

Na primeira, fui à Muralha da China. Graças ao guia que falava inglês (ou quase isso, já que ninguém conseguiu entender 100% do que ele disse naquele dia), todo o grupo era de ocidentais. Americanos, italianos, holandeses, ingleses… Colei num casal de alemães divertidíssimo e passamos a manhã andando pela muralha e fazendo graça. No almoço, sentamos todos numa mesa enorme, provando comidas exóticas e trocando impressões sobre a China. Um dia muito divertido.

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Não tiramos fotos juntos, mas Julie e Peter acabaram saindo em uma das minhas fotos por acidente

Na segunda, fui à Jade Dragon Mountain, uma montanha famosa na cidade relativamente pequena de Lijiang. A cidade é bem turística, só que para chineses. Os poucos ocidentais que eu vejo estão interessados em fazer um trekking super procurado que dura dois dias e não passam muito tempo explorando o restante da cidade.

Sabendo disso, não era para eu ter ficado tão surpresa quando a pessoa da recepção do albergue me falou que o guia da excursão falava chinês. “Tudo bem, a pessoa trabalha com turismo, alguma coisa em inglês ela deve falar, né?” Não na China. A primeira hora dentro da van foi um pouco torturante, com todas as outras pessoas falando em chinês o tempo todo e eu ali sem entender nada e já me arrependendo de ter gastado meu rico dinheirinho. O grupo era formado por um casal coroa, um casal de trinta e poucos anos de chapéu (sim, ambos) e um trio jovenzinho, e aparentemente ninguém iria se comunicar comigo o dia todo.

Quando chegamos na montanha para pegar o bondinho, o guia cismou que se repetisse tudo bem devagar eu iria entender. Mas aí veio a primeira reviravolta do dia: o casal de chapéu consegui falar uma ou outra palavra em inglês, o suficiente para me passar algumas informações básicas tipo “esperar 11 horas bondinho”. Ao perceber isso, meu plano era passar o dia seguindo os dois para não me perder e ser esquecida na montanha, mas acabei nem precisando fazer a stalker ocidental estranha.

Normalmente em excursões assim, o guia passa o horário e um ponto de encontro e a partir daí é cada um por si, indo para onde quiser de forma independente. Só que dessa vez o grupo (que não se conhecia, é bom lembrar), decidiu andar junto o tempo todo, e meio que me adotou. Ficaram preocupados se eu tinha entendido as instruções de como montar o respirador de oxigênio e durante a subida, estavam sempre olhando em volta para ver se eu não tinha me afastado e perguntando se eu estava bem. Obcecados por fotos como só os chineses são, eles perguntaram várias vezes se eu não queria que eles tirassem uma foto minha e fizeram questão de me incluir na foto em grupo (e de me passar a foto depois).

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Eu no meio dos chineses

Claro que problemas de comunicação acontecem e quando o cara do chapéu falou que a garrafa de oxigênio tinha capacidade para 18 “respiradas” eu surtei. Não estávamos nem na metade do caminho e eu já tinha usado várias vezes. “Socorro! Vou morrer aqui em cima, ainda bem que eu paguei o seguro viagem mais caro com direito a remoção de helicóptero.” Mas foi apenas um probleminha de pronuncia e ele quis dizer 80 (viram, alunos, como faz muita diferença?). Ufa!

Depois disso inda teve o almoço, com muita mímica para me explicar como as coisas funcionavam e a tia coroa tentando encher a minha cumbuquinha de comida a cada cinco minutos.

Apesar da comunicação limitada, tive um dia incrível que eu dificilmente vou esquecer, e mudei completamente a ideia que eu tinha dos chineses. Quem diria que era só ir numa excursão para isso acontecer?

O primeiro aniversário

O dia foi tão corrido que acabei só pensando nisso pouco antes de pegar no sono, mas ontem (10/09/2016) fez um mês que eu comecei minha viagem chegando no Japão. Nunca pensei que um mês passaria tão rápido e, ao mesmo tempo, fosse ser tão cansativo.

Andei de barco, subi montanha, perdi a hora no vulcão, vi uma aprendiz de gueixa de verdade, fui sacaneada por não saber andar de bicicleta, fiz muita mímica, andei pela muralha da China, vi pandas de verdade, fiz amizades de um dia, perdi uma meia, comi coisas que eu não sabia nem se iriam ser doces ou salgadas, fui ajudada por desconhecidos (que às vezes nem falavam a mesma língua que eu), me livrei de ser enrolada por taxistas, visitei templos milenares, e tantas outras coisas que nem parece que foram só 30 dias.

Depois de 8 cidades, chego em Lijiang para mudar um pouco as coisas e fazer mais uma coisa que nunca fiz antes: vou ficar em um albergue trabalhando em troca de hospedagem. Pelos próximos 15 dias, nada de correr com o mochilão nas costas para pegar o ônibus nem ficar naquela expectativa infernal esperando ao lado da esteira do aeroporto pensando se dessa vez perderam a minha bagagem. Quase um descanso.

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Uma cama para chamar de minha pelas próximas duas semanas

Esperem uma pequena diminuição na quantidade de fotos postadas, mas um possível aumento de textos publicados. Quem sabe com esse tempo todo eu finalmente me acostumo com a culinária chinesa e aprendo a falar algo além de ni hao? Veremos.

 

Uma emoção chamada “chegar sem dinheiro”

Eu sou uma pessoa organizada. Com viagem então, eu beiro a paranoia. Sempre caí na estrada com tudo decidido, reservado e preparada para qualquer eventualidade. Tudo devidamente calculado e a moeda estrangeira já trocada para não me enrolar com o maldito iof do cartão.

Mas aí como faz quando você vai para vários lugares e não é prático (nem seguro) trocar todo o seu dinheiro em cada moeda que você vai precisar. Depois de muitas pesquisas no maravilhoso mundo da internet, descobri que a melhor alternativa para mim seria fazer saques com o meu cartão de débito em moeda local em cada lugar que eu chegasse. Na teoria, tudo lindo, mas na prática me rendeu meus primeiros momentos de tensão na China.

Já saí no Brasil com os meus ienes japoneses em mãos, já que era o primeiro lugar que eu iria, e, como sou quase de humanas, ainda estou tentando entender a magia que eu fiz para ter trocado uma quantidade tão exata de dinheiro (sério, só sobraram moedinhas). Ainda no aeroporto de Osaca, perguntei no balcão de informações, como quem não quer nada, se era possível sacar dinheiro nos caixas eletrônicos em moeda chinesa. Nada feito. Entrei no avião sem um tostão chinês no bolso e morrendo de medo, se algo desse errado não conseguiria nem sair do aeroporto.

Depois de finalmente pousar e passar por toda aquela burocracia da imigração, avisto um caixa eletrônico. “Ufa!”, pensei. Cheguei perto e logo na tela de entrada tinha a opção de menu em inglês. “Já deu certo!”. Coloquei meu cartão, fui seguindo as instruções e aparece o aviso ERRO. “Ops…O que será que eu fiz de errado?”. Tentei novamente, mesma coisa. Tentei com outros dois cartões, nada funcionava.

Fazendo o meu melhor para controlar o desespero, fui procurar outro caixa eletrônico. Por sorte aviso outros dois um pouco mais a frente. Me aproximo e ambos estão com plaquinhas FORA DE SERVIÇO. “Ai minha Lady Gaga, o que eu faço agora?” Bateu até um calor e tirei o casaco.

Decidi andar mais um pouquinho quando vejo lá no fim do corredor minha última esperança, uma última máquina quase escondida depois da curva. Lá vou eu novamente e “Aleluia, irmãos!”, as notinhas com a cara do Mao Tse-tung finalmente chegam nas minhas mãos e eu posso finalmente pagar pelo ticket do trem para chegar no meu hotel. Na verdade, pegar o trem, para pegar o metrô, trocar de linha no metrô, sair na estação certa, me achar super esperta por ter conseguido, me perder ao virar na rua errada, me achar uma idiota já que é obvio que o Google Maps não funciona aqui, pedir penico e entrar num táxi.

Sim, aqui já começa com emoção…

Tchau, Pikachu!

Nesse momento estou no trem a caminho do aeroporto de Osaka e me despedindo do Japão. Ainda não consigo ter a mínima ideia de como as coisas serão na China, mas aqui foi como eu sempre sonhei. Mais ou menos.

Sim, todos são sorridentes e prestativos. Sim, é tudo muito limpo e organizado. Sim, as crianças são fofas. Sim, dá um pânico quando você vê a quantidade de estações de metrô, mas no fim dá tudo certo. Não, eles não falam inglês com muita desenvoltura, mas todo mundo se entende.

Mas olha, eu realmente não estava preparada para o calor, sempre achei que o clima aqui seria mais ameno. E os insetos! Quantas libélulas, borboletas e cigarras voando para todos os lados (pena que dificilmente ficavam quietinhas para as fotos)! Ainda bem que a minha irmã não está aqui, porque até eu fiquei meio impressionada com a quantidade de aranhas.

Também descobri uma coisa sobre mim: não, eu não gosto de comida japonesa. E eu nem estou falando de Sushi. Alguém precisa apresentá-los aos temperos, galera, sério, um pouquinho de alho não faz mal a ninguém. Só não precisa mexer no Ramem. Tá ótimo, continuem assim. E vamos também maneirar no sabor chá verde, tudo bem que eu não curto, e nem adianta tentar na versão chá, suco, smoothie, sorvete, bolo, bala, pão, nem macarrão.

Em 19 dias na terra do sol nascente teve templo, castelo, palácio, templo, jardim, parque, e já falei dos templos? E o mais legal foi ver que eles não estão ali só para os turistas, de vez em quando aparece alguém para dar uma rezadinha rápida antes do trabalho.DSCN0157

Chegou a hora de dar adeus ao Japão e oi para a China. Seja o que Buda quiser!

Tá calor

“Eu subestimei o verão japonês…”

Isso é tudo em que eu consigo pensar quando sento no metrô que acabou de abrir as portas depois de uma tarde de bateção de perna. Enquanto amarro o cabelo (e mentalmente xingo a minha mãe por ter decidido sair de cabelos soltos depois que ela disse que eu agora só ando com esse cabelo preso) e tento inutilmente secar o suor do meu rosto com um lencinho de papel, eu reparo na japonesa que se sentou na minha frente.

Sacola de compras na mão, provavelmente também esteve andando por aí debaixo do mesmo sol que eu, e uma calma e tranquilidade de quem está numa temperatura de pelo menos dez graus a menos que eu. Ela está de cabelos soltos e não há um fio fora do lugar, a franjinha também não parece grudada na testa.

Enquanto eu estou me abanando com o panfleto que recebi no museu, mais vermelha que um pimentão, ela está ali com uma pele que parece uma porcelana de tão branca. Enquanto eu estou de shortinho e regata sentindo o suor escorrer pelas minhas costas, ela veste uma saia esvoaçante até o meio da canela, blusinha de manga 3/4 e, pasmem, um casaquinho leve por cima. Isso tudo e nem uma gota de suor escorrendo pelo rosto, e eu aqui quase desidratada.

Ela não é a única. A senhora logo ao lado também está toda trabalhada na sobreposição e a menina que a acompanha está usando luvas sem os dedos estilo anos oitenta até os cotovelos. Fico com mais calor ainda só de olhar.

Pode até ser que elas estejam acostumadas com o calor de Tóquio, mas eu também devia estar, ou será que eu não nasci no Rio-40-graus?

Pelo que eu me lembro, cariocas vivem permanentemente suados. A gente já sai do banho querendo voltar para debaixo do chuveiro. Todo mundo já se sentiu meio mal por estar com uma pizza embaixo do braço. Dá até pena de ver os engravatados andando pelas ruas do centro da cidade em pleno dezembro. Não sabemos lidar com o calor, nosso corpo reclama e queremos sempre usar menos roupa.

Mas não no Japão. Japoneses devem ter uma fisiologia diferente, sei lá. Aliás, japoneses não, japonesAs. Porque pelo menos pela fisionomia daquele sujeito que se refresca com seu leque enquanto captura mais um Pokemón, ele deve estar sentindo o mesmo calor que eu.

Sabadão no parque

Muitas coisas podem acontecer num sábado preguiçoso no parque.

Você pode, por exemplo, estar andando calmamente na beira do lago tentando fotografar uma bela flor de lótus quando quase é atropelada por uma horda de caçadores de Pokemóns correndo atrás de algum monstrinho raro. Juro, de repente era muita gente andando na direção contrária a minha com celulares em punho, alguns correndo, justamente numa parte não muito larga do caminho. Achei que seria levada pela corrente, mas consegui me manter no lugar graças a um poste que me protegeu.

Aliás, você pode aproveitar o wifi do museu ali do lado para caçar uns Pokémons também, porque ninguém é de ferro e tem bem um Psyduck aqui dando sopa. Só não pode ir muito longe. Chegou no lago, acabou o sinal. Nunca vou conseguir chocar meus ovos assim…

Você pode também ser ousada e comer um negócio que você nem sabe o que é, mas já que estava com uma cara boa e um monte de gente comprando, porque não, né? Podia ser melhor? Podia. Mas deu para comer tudinho e ainda foi uma pechincha.

Você pode (quase) manter um diálogo com um senhorzinho japonês que não fala inglês. Enquanto eu estava sentada comendo minha comida estranha, o tal senhorzinho falou qualquer coisa em japonês pra mim e pela cara que eu devo ter feito ele entendeu que eu estava boiando e apontou para a minha tatuagem. Depois abriu a bolsa e tirou umas fotos de pessoas tatuadas no estilo tradicional japonês para me amostrar, era fotógrafo pelo jeito. Ele também elogiou o jeito que eu estava segurando o hashi (ou estava me sacaneando por estar fazendo muito errado, nunca saberei) antes de voltar a alimentar os passarinhos.

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O senhorzinho fazendo a alegria dos pássaros

Você pode ainda andar sem rumo pelo parque e encontrar um templo bem lá no meio. Nada estranho em se tratando de Japão. Mas o que esse templo tinha de especial é que estava acontecendo uma cerimônia lá dentro. Fiquei em um cantinho perto da porta para ver um pouquinho e não atrapalhar ninguém, mas eis que chega um monge e faz sinal mostrando que eu posso chegar mais perto para ver melhor.

Muitas coisas podem acontecer num sábado preguiçoso no parque, mas tudo parece mais mágico se você está no Japão.

Sobre não falar a língua de um país

A alguns dias vi um relato sendo compartilhado algumas vezes na minha timeline que me deixou completamente chocada. Uma mocinha, “carioca da gema” se vangloriava por ter se recusado a falar inglês para ajudar um gringo perdido nas ruas do Rio de Janeiro, afinal, se ele veio para as Olimpíadas tinha que ter aprendido português, de acordo com ela.

Com o meu vocabulário japonês restrito a “sim”, “não”, “oi” e “obrigada”, não consigo nem imaginar como estaria sendo minha viagem ao Japão se as pessoas por aqui seguissem a mesma linha de pensamento dessa coleguinha. Que bom que eles não são assim e, por enquanto, só tenho estórias fofas para contar.

  • (Quase) perdida no trem

Como já tinha ouvido falar que táxis são caríssimos no Japão, fiz o trajeto do aeroporto até o meu albergue de trem. Pedi informação (em inglês) no balcão do aeroporto e a atendente me indicou como chegar na estação e ainda me deu um mapa marcado com o trajeto que eu iria fazer e a estação na qual eu devia descer.

Fui lá e peguei o trem que não demorou a sair. Mas acontece que o meu mapa indicava que havia duas estações antes do meu destino, e o trem começou a fazer várias paradas em lugares que eu não conseguia achar no mapa e o desespero bateu. “Peguei o trem errado!”, é o que passa pela minha cabeça. Só tem japonês no trem e todos estão mexendo no celular, “Socorro, como eu faço agora?”.

Quando a menina que estava do meu lado baixou o telefone por uns minutinhos, perguntei se ela falava inglês e ela disse que só um pouco. Gelei, mas perguntei se ela podia me mostrar no mapa onde era a estação que nós estávamos. Depois de uns longos segundos em que eu não sabia se ela estava tentando se achar ou não tinha entendido a pergunta, ela me apontou a linha na qual eu esperava estar (só as estações principais estavam no mapa, entendi) e confirmou que o trem estava indo para o lugar que eu queria sim.

Se acabasse por aí, já estaria bom. Algumas estações depois (sim o trajeto era longo), a japonesa levanta para saltar, mas antes de sair do trem me avisa que faltam mais três paradas para a minha e que o trem em que estamos está atrasado 2 minutos.

Não tinha como ter uma primeira impressão melhor que essa, mas aí…

  • (Um pouco mais) perdida tentando achar o hotel

… depois da aventura no trem eu ainda tenho que andar uns cinco minutinhos e achar o hotel. Já tinha feito o caminho em casa pelo Google Street View e estava super confiante de que caminho seguir.

Achei o albergue sem problemas, mas quando chego na porta há um aviso de que pelo horário a recepção estava fechada e eu deveria seguir para a entrada noturna, com um mapinha para a pessoa não se perder.

Analu olha o mapinha. Analu compara o mapinha com o que ela tem em mãos. Analu memoriza o mapinha, segue em frente, dá a volta no quarteirão e acaba no mesmo lugar.

Decidi voltar ao contrário para ver se não tinha passado direto pela entrada e vi um senhorzinho em cima de uma bicicleta. Como já era tarde, a mochila estava pesando (mais pelo cansaço das 32 horas de viagem do que pelos 10 quilos) e não tinha muita gente na rua, resolvi pedir informação para ele mesmo.

Perguntei se falava inglês e ele mostrou que não. Apontei no mapa a localização e o nome do hotel. Ele fez cara de confuso, passou um tempo tentando entender para onde eu queria ir e quando eu pensei que tudo estava perdido e que eu teria que dormir na rua na minha primeira noite em Tóquio, ele pega o próprio celular e tenta ligar para o número do albergue escrito no meu papel.

Ele não conseguiu falar porque obviamente a recepção estava fechada, mas o que ele faz então? Sobe na sua bicicletinha para procurar pelo quarteirão, e só parou quando finalmente achou e me mostrou a entrada escondida depois de uma curva.

  • Como não iria conseguir explicar na mímica, nem tentei

O café da manhã tipicamente japonês tem arroz e peixe, o que poderia dificultar muito a minha vida, se não houvesse um Starbucks pertinho do meu hotel.

Já havia estado lá nos dias anteriores (foi lá que rolou a fofurisse do “Welcome to Japan” logo no primeiro dia), mas nesse dia queria partir logo porque o caminho seria longo então pedi o meu chocolate quente para viagem.

Fizeram meu pedido rapidinho, tudo certo, e me entregaram. Quando peguei o copo estava bem quente e sem aquele tipo de papel de proteção que normalmente eles colocam no copo para ajudar a segurar. Procurei no balcão onde ficam os canudos e guardanapos e nada. Eu podia simplesmente ter perguntado, mas imagina ter que explicar em inglês para uma pessoa que não fala a língua tão bem assim que eu precisava “aquele tipo de papel de proteção que normalmente eles colocam no copo para ajudar a segurar”?

Desisti e sai da cafeteria. Já tinha dado alguns passos na calçada quando uma das funcionárias vem atrás de mim, falando em japonês e me mostra a budega que eu estava procurando. Recapitulando: ela foi atrás de mim fora na loja para me dar o que eu estava procurando sem eu nem ter falado nada!

Resumindo, essa carioca do tal post: não seja essa pessoa. Talvez você não consiga acabar com a fome na África ou com o aquecimento global sozinho, mas você pode ajudar um turista que não fala a sua língua, e acredite, vai fazer toda a diferença no dia dele. Com certeza está fazendo pra mim.

Daqui pra frente

Uma vez li em algum lugar a pergunta “Você já fez alguma viagem que mudou sua vida?”. Fiz sim, da última vez que viajei tive a certeza que queria e que precisava viajar muito mais. A certeza foi tão grande que resolvi que um dia iria fazer a louca, pedir demissão, botar uma mochila nas costas e cair no mundo sem data marcada para voltar.

Não deu para esperar o convite do Gandalf, mas mesmo assim esse dia chegou. Na última segunda feira embarquei na maior aventura da minha vida e não faço ideia das coisas que irão acontecer daqui pra frente, só sei que se eu não atualizar esse blog com frequência vai ter gente se teletransportando para de dar umas bolachas.

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Para quem algum dia já tinha estado no meu blog, é possível que a quantidade de textos sobre os “causos” da minha irmã diminuam, mas nada é garantido (afinal, quem vai dar limites a essa menina comigo longe?). Aos que nem sabiam da sua existência, bem-vindos, e perdoem o mau português com excesso de parênteses e pontos de exclamação e o fato de eu nunca ter entendido direito as novas regras de acentuação.