Os amigos e eu

Se eu disser que eu gosto muito de Friends, estarei subestimando o tamanho do meu amor por este programa de TV. Toda vez que alguém elogia o meu inglês, eu assumo que a culpa é de Friends, e quando eu finalmente tive condições de fazer a minha primeira viagem internacional da vida, eu fiz as malas e parti pra Nova York.

As tardes da minha adolescência nas quais eu fiquei assistindo às reprises que passavam ad infinitum na TV por assinatura, fizeram não só com que eu praticasse as minhas habilidades linguísticas e desenvolvesse esse sonho de conhecer a Big Apple, mas também serviram para que eu me sentisse parte do grupo e me identificasse com cada um dos personagens, mesmo que mais com uns do que com outros.

A Phoebe era a pessoa que eu queria ser. Apesar do passado conturbado e da infância difícil, ela tem uma vida adulta ótima! Ela tem um emprego pouco convencional que a faz feliz, na maior parte do tempo não divide apartamento com ninguém, usa seus talentos artísticos para se divertir, tem o guarda-roupa mais legal, tem os namorados mais bacanas/estranhos (gosto não se discute amigos!) e ainda acaba a história com o Paul Rudd! Mas o grande ponto de identificação comigo era ser a amiga que mora longe. Só quem é a pessoa que não mora no mesmo bairro do restante do clã sabe como é isso.

Eu sempre me identifiquei muito com a Mônica. Problemas com os pais aparte, eu também sofri bullying quando era criança por causa do peso (só que era por ser magra demais), eu também tenho uma tendência excessiva à limpeza e a organização, e eu também enfrento problemas com o meu cabelo em ambientes de umidade excessiva. Só me falta o talento culinário (quem sabe um dia eu chego lá?).

Confesso que nunca gostei muito da Rachel. Inclusive, acho que parte do ódio que eu desenvolvi pela personagem acabou contaminando um pouco a minha impressão sobre a Jennifer Aniston. Mesmo com aquela história toda de superação e descoberta da independência, eu só consigo simpatizar com ela naquele episódio em que a personagem adota um gato Sphynx e sofre bullying por isso, e mesmo assim, ela joga a minha simpatia no lixo ao se desfazer do gato por causa da pressão social.

Por mais que eu odeie admitir, também tenho um pouco de Ross em mim. Nada da coisa do ciúme doentio (aliás, o casal Ross+Rachel me irritava desde o início), mas a tendência a se estender no discurso sobre um assunto cientifico que não interessa a mais ninguém eu tenho um pouco. Aproveito para pedir desculpas a todos os amigos que me aturaram durante a faculdade de Biologia, especialmente durante a fase da caneca de plástico que me acompanhava para todos os lugares.

Por acaso existe alguém no universo que não quisesse ser amigo do Joey? O cara é bacana, engraçado, cheio dos contatos televisivos, curte animais, registra todos os momentos em viagens, é seguro o bastante sobre a sua sexualidade para usar batom azul e tirar sonecas de conchinha com amigos homens, se esforça para aturar a namorada do melhor amigo mesmo não suportando ela. É tanta qualidade que a gente até releva a coisa dele não dividir comida.

E aí tem o Chandler. A pessoa que um monte de gente acha que é gay só porquê ele não está constantemente acompanhado. A pessoa que decide mudar de carreira. A pessoa que passa a vida fazendo piada como forma de esconder a sua indisponibilidade emocional. Qualquer semelhança com essa que vos fala é mera coincidência.

E tudo isso foi só pra dizer que, sabe como é, eu sou meio Chandler. Tive que dar essa volta toda pra dizer que ter um blog é mais difícil do que parece, principalmente pra mim que prefiro contar 50 piadas do que falar de algo pessoal. Não acho que o Chandler era tipo de pessoa que teria um blog contando sobre a vida dele, e ainda assim, estou aqui. Talvez a gente não tenha tanto em comum afinal.

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Coisas esdrúxulas acontecem na China

“Você está na estrada de novo?”. Recebi esse comentário numa foto que eu postei ontem, mas ele não foi o único. Durante as últimas semanas, tem sido comum que alguma variação dessa frase apareça num comentário quando eu posto alguma foto de terras indubitavelmente chinesas.

A resposta é que não, eu não estou viajando, eu estou morando em Pequim a um mês, e morar num lugar como a China é intensificar à quinta potência a probabilidade de que coisas esdrúxulas aconteçam. Sim, porque elas realmente acontecem todos os dias.

Por exemplo, estava eu andando tranquilamente pela rua a caminho de um templo escondido nos confins de um hutong caindo aos pedaços, achando que o máximo que poderia acontecer era eu me perder e nunca mais achar o caminho de casa. Como a rua era bem estreita, fui caminhando mais para o canto para não ser surpreendida por alguma moto ou bicicleta. Não, eu não estava com medo de ser assaltada, e sim de ser atropelada. Duas velhinhas vinham andando na direção contrária e como havia espaço de sobra, não me importei muito com elas enquanto eu parava para tirar uma foto da paisagem. Acontece que enquanto eu estava distraída tentando ajustar o foco, uma das senhorinhas desviou do seu caminho só para passar a mão em mim. Nada de cunho sexual, veja bem, ela só passou a mão no meu braço e riu pra mim porque provavelmente eu fui pessoa mais escura que ela já viu na vida.

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Foi por causa dessa foto que acabei sendo tocada por uma chinesa sexagenária

Também teve o dia em que eu fui almoçar num restaurante ocidental achando que a escolha facilitaria a minha vida, mas não foi bem isso que aconteceu. Mesmo com o cardápio em inglês e eu literalmente apontando o que eu queria, o pobre do garçom ficou tão desconcertado com o fato de eu não falar chinês que desistiu de me atender sozinho e pediu ajuda a uns outros clientes que estavam na mesa ao lado. Pelo menos a comida chegou sem problemas.

Mas nem sempre o tópico comunicação acaba em frustração (a rima não foi intencional, eu juro). Estava com umas amigas num parque e enquanto fazíamos um lanche, um pai acompanhado de seu filho de uns 10 anos de idade se aproximaram e sentaram no banco ao lado. O pai falava algumas coisas em chinês com o filho como se estivesse incentivando-o (para não dizer coagindo) a fazer alguma coisa. Até que o menino finalmente tomou coragem e comecou a conversar com a gente. O pai só queria que o filho praticasse um pouco de inglês com as ocidentais que estavam ali dando sopa. Aliás, eu daria 10 não só para o inglês dele, mas também para os conhecimentos em geografia, já que ele até sabia onde fica o Brasil.

O quesito fotográfico é sem dúvida um dos mais curiosos. Nesse tempo em que estive aqui já teve gente tirando foto minha sem pedir (em uma das vezes, com direito a flash), já teve gente tirando selfie num ângulo estratégico para que eu aparecesse no fundo, e já teve até a vovozinha que veio com um bebê no colo para tirar foto com o grupo de ocidentais que só estava esperando o metrô depois de um dia cansativo de trabalho.

Isso tudo e muito mais aconteceu em apenas um mês. Imagina só tudo que ainda pode acontecer em um ano?

Eu voltei

E eis que dez meses depois, eu voltei pra casa.

Foram dez meses de viagens intermináveis de ônibus, de medo de passar na fronteira de um país para o outro, e de carimbos no passaporte. Dez meses de diálogos com pessoas que não falavam a mesma língua que eu, de fingir que entendia o inglês dos asiáticos, e de aprender palavras em outros idiomas que duravam no máximo uma semana no meu cérebro. Dez meses de comida sem tempero, comida exótica, e comida deliciosa. Dez meses de muitas aventuras, muitos novos amigos, e nenhum arrependimento.

OK, talvez esse último item seja um exagero, claro que tiveram arrependimentos. Me arrependi de pedir aquele prato super apimentado na Tailândia que eu nem consegui terminar de comer. Me arrependi de não ter feito aquele trekking na Malásia por medo do tempo não firmar. Me arrependi de não ter comprado aquele livro em Praga porque achei que não ia ter lugar na mala.

Mas ao contrário do que muita gente achou, não me arrependi de ter chutado o balde e caído no mundo. Mesmo tendo voltado um pouquinho antes do que eu havia planejado inicialmente, foi tudo (meio que) friamente calculado.

E voltei e nada mudou. Minha irmã continua bagunçando a casa, meu pai continua incapaz de ligar o DVD sozinho, e minha mãe continua cozinhando maravilhosamente. As rolinhas continuam invadindo a casa para comer a ração do cachorro, e ainda é preciso fazer uma forcinha pra direita na hora de fechar a porta do armário.

Mas tudo isso não era mais suficiente, eu precisava de um pouco mais. Um pouco mais de aventura, de desconhecido, de desafio. E foi por isso que eu resolvi que ainda não era hora de voltar de vez. Era o momento apenas de rever os amigos e a família, fazer um carinho no gato, tirar a barriga da miséria com as comidinhas de mamãe, e ser a maluca que vai embora de novo.

Agora estou em Pequim onde, se tudo continuar dando certo, devo ficar por pelo menos um ano. Eu tenho outra cama, outra casa, outra rotina. Por enquanto ela me apetece, não sei quanto tempo vou levar para me cansar dela, mas quando até uma uma ao supermercado vira uma aventura, fica difícil imaginar que eu irei me cansar dessa vida num futuro próximo.

Uma lista importante

“O mochileiro é um viajante independente, que organiza suas viagens por conta própria, dando ênfase ao conhecimento, aventura e diversão. Geralmente, utiliza meios de hospedagens mais econômicos e costuma fazer viagens mais longas.” Ufa, acho então que faço mesmo parte do grupo, pelo menos segundo à Wikipedia.

A dúvida começou a pairar sobre a minha cabeça antes mesmo de por os pés na estrada. Durante as minhas intermináveis pesquisas internéticas, entre sugestões de roteiro no sudeste asiático e dicas para economizar na Europa, um tema com o qual eu esbarrei várias vezes foi “o que não pode faltar na mochila de um mochileiro de verdade” (ou qualquer coisa desse tipo).

Essas listas costumam ser meio redundantes, ou criativas até de mais. Afinal, quem viaja sem levar calcinha? Ou melhor, é realmente necessário ter vitaminas na mala para uma viagem de 15 dias?

Sei lá, vai ver que eu é que não sou uma mochileira “de verdade”. Se bem que se viver 10 meses exclusivamente com o conteúdo de uma mochila não é ser mochileiro, eu não sei o que é. E por me considerar parte do grupo sim, é que eu decidi fazer a minha própria lista, mas um pouco diferente, uma lista das coisas que você com certeza vai ter dentro da sua mochila durante uma viagem de longo prazo, mesmo que você não tenha muita certeza de como elas foram parar lá:

  • Um pé de meia avulso que teve seu par perdido por aí, mas que não foi jogada fora porque em algum momento outra meia vai ficar sozinha, e mesmo diferentes elas vão poder formar um par;
  • Uma peça de roupa rasgada/manchada mas que continua sendo usada como qualquer outra, porque se está mochila, tem que ter utilidade;
  • Uma peça que um dia já foi branca, hoje nem tanto, e se alguém falar alguma coisa a gente sai pela tangente dizendo que é off white e vai conversar com outro mochileiro amigo com uma blusa mais encardida que a sua;
  • Um peça de roupa bem típica que você dificilmente vai ter coragem de usar na vida real. Por exemplo, que atire a primeira pedra quem conseguiu sair da Tailândia sem ter comprado a calça de elefante;
  • Uma peça de roupa que não é sua. Pode ter vindo de brinde na leva que foi para a lavanderia, mas a gente nunca vai saber…;
  • Panfletos e ingressos de atrações turísticas nas quais você não foi;
  • Moedas de países onde você esteve meses atrás, que não servem para nada a não ser fazer peso, mas que a gente se recusa a dar fim porque vai ter que servir de souvenir já que você não comprou nem um imã de geladeira para guardar de recordação.

Às vezes, você só descobre que tudo isso estava na mochila ao finalmente chegar em casa e ter a dolorosa tarefa de desfazê-la. Às vezes, entre um destino e outro, num albergue de qualidade duvidável, você se pega com um desses itens na mão e decide se desfazer logo dele, afinal, espaço sobrando na mochila é tão desejável quanto café da manhã incluído na diária. Mas o que importa é que em algum momento, tudo isso esteve lá.

Fazer a blogueira de viagem viciada em listas dá mais trabalho que carregar por aí uma mochila com uns quilinhos a mais que o estritamente necessário. Mas ter uma desculpa para lembrar dos pequenos detalhes da viagem é tipo ter um Mastercard, não tem preço.

Jéssica e o livro

Há quem goste de conversar com pessoas que já visitaram um certo destino antes de viajar para lá, há quem goste de ver um filme que tenha sido gravado em tal lugar, e há quem goste de ler um livro onde a história se desenrola no destino a ser visitado.

Jéssica se encaixava no terceiro grupo, por isso decidiu ler “100 anos de solidão” de Gabriel Garcia Marquez como forma de preparação para a sua viagem para Colômbia, um presente de seu irmão que possuía um exemplar a muitos anos encostado numa estante e decidiu dá-lo à irmã quando soube de seus planos. Mas como os dias que antecedem qualquer viagem são sempre bastante atribulados, ela só conseguiu começar a ler a obra no avião a caminho de Medellín.

Como não poderia ser diferente, Jéssica ficou completamente vidrada na história. Devorou mais de um terço do livro só nas horas de voo. Levou o volume consigo durante a trilha que durou dias na floresta mesmo sabendo que só conseguiria avançar um pouquinho por dia na história com a ajuda de uma lanterna depois de um dia longo de caminhada. Carregava o livro sempre na bolsa para aproveitar qualquer oportunidade, fosse esperando na fila do museu ou pegando o ônibus de volta para o hotel.

Um belo dia, Jéssica, cansada de tanto bater perna pelas cidades colombianas, resolveu pegar um sol à beira da piscina do seu hotel e, claro, aproveitou para continuar com sua leitura. Chegou até o último capítulo, mas deixou Garcia Marquez de lado quando outros hóspedes puxaram conversa e acabou esquecendo o livro na mesa quando decidiram ir para outro lugar.

Tão perto do fim da história, a leitora ficou inconsolável quando, no dia seguinte, se deu conta do que havia acontecido. Revirou a área da piscina de ponta cabeça, perguntou a todos os funcionários do hotel com seu espanhol capenga, falou com outros viajantes, mas não teve sorte em descobrir pistas sobre o paradeiro do livro.

Desolada, mas sem tempo a perder, já que pegaria um ônibus para a próxima cidade em algumas horas, ela decidiu que a primeira coisa que faria em seu próximo destino seria encontrar uma livraria e comprar um novo exemplar para, finalmente, conhecer o final da saga da família de Aureliano.

No ônibus, sem ter nada para se distrair, Jéssica começou a notar as pessoas em volta e qual não foi a sua surpresa ao notar que um senhor algumas fileiras a frente estava lendo justamente “100 anos de solidão”. Sem conseguir dar um chega pra lá na pulga que se instalou atrás de sua orelha, ela puxou assunto com a esposa do turista na parada para banheiro e descobriu que ele havia acabado de conseguir o livro com o programa de trocas do hotel onde ficaram hospedados, o mesmo hotel de Jéssica.

Para acabar de vez com qualquer dúvida, ela pediu para ver o livro, pois seu irmão havia feito anotações à lápis nas primeiras páginas do volume a muitos anos atrás. Sim, as palavras tortas de seu irmão estavam lá, era o mesmo livro, como se o universo estivesse tentando colocá-lo de volta no caminho dela.

É claro que ela tentou agradecer ao universo na forma de não falar nada durante a viagem de ônibus para que o senhor não perdesse a sua distração durante aquelas longas horas, mas assim que chegaram ao destino final ela pediu encarecidamente se poderia ter o livro de volta e explicou como faltava tão pouco para que ela chegasse ao fim da história pela qual ela havia se apaixonado e como o livro em si também possuía um valor sentimental por ter sido um presente de seu irmão.

Esta poderia ser uma história fabulosa sobre como alguém perde um objeto e, depois de uma longa e cansativa busca uma terra longínqua, consegue recuperá-lo. Porém, o poder de sedução de um bom livro pode ser maior que a empatia por outro ser humano e o senhor simplesmente se recusou a devolver o livro à sua dona original.

E sendo assim, Jéssica não teve outra alternativa a não ser segurar sua ansiedade até finalmente encontrar uma livraria onde pudesse comprar outro exemplar do famoso livro de Marques e enfim desvendar o mistério das últimas páginas. Além de claro, desejar com todas as suas forças que o tal senhor esquecesse o livro em algum banco de praça, mesa de café, ou beira de piscina quando também para ele faltasse pouco para o fim da história. E se Gabriel Garcia Marquez estava certo ao dizer que “a vida cotidiana na América Latina nos demonstra que a realidade está cheia de coisas extraordinárias”, foi exatamente isso que aconteceu.

 

De porrete na mão

Pode chamar de preguiça. Pode chamar de procrastinação excessiva. Pode até chamar de depressão pós-viagem. Não importa como você chame, como é possível uma pessoa ter viajado durante 10 meses, visitado 16 países, perdido as contas de quantas pessoas conheceu, e mesmo assim estar a 3 meses sem escrever uma linha se quer?

Eu poderia culpar as últimas semanas intensas da viagem, as séries que precisavam ser colocadas em dia, a saudade da minha cama, os filmes do Oscar que ainda não haviam sido assistidos, o gato recém-atropelado que precisava de atenção, a arte de transformar aquele “vamos marcar” em realmente encontrar as pessoas que eu não vejo a quase um ano, e até a árdua tarefa que é tentar arranjar um emprego de novo.

Mas, ao usar o tempo livre que eu finjo que não tenho para navegar pelo Tumblr, eis que eu me deparo com uma citação de um dos meus autores favoritos que fez com que eu enfrentasse a minha falta de vergonha na cara:

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Ou, em claro e bom português, “Você não pode esperar por inspiração. Você tem que ir atrás dela com um porrete”.

É verdade que eu não tenho muita inspiração, mas eu tenho um blog para ser atualizado. Então, de porrete imaginário na mão, lá vou eu vasculhar o celular cheio de anotações quase indecifráveis que variam de algumas palavras soltas à incontáveis frases desconexas, torcendo para que essas notinhas misteriosas se transformem em histórias que valham a pena serem contadas.

É bem provável que eu não tenha tantos episódios interessantes sobre a estrada para contar quanto o próprio Jack London, mas não me custa tentar. Antes isso que sonhar com um escritor furioso como um lobo me perseguindo com um porrete.

 

Rotina de estudante

Hoje é domingo. Eu acordei quase às nove, sem despertador, sem correria, e sem os fogos de artifício (sim, os posts raivosos anuais do Facebook me lembraram de como eu estou feliz por não estar aí no dia de São Jorge dessa vez). Hoje é domingo e, depois de uma semana de quase folga, eu acordei com aquele sentimento que a muito tempo eu não sentia de lembrar que amanhã começa tudo de novo.

Acordar cedo, dar aula, ouvir a opinião dos colegas sobre a sua aula, dar a sua opinião sobre a aula dos colegas, almoçar correndo (geralmente no restaurante turco onde o gerente fala português), ter aula sobre como dar aula até às cinco, gastar alguns minutos tentando se entender com a impressora para ter cópias de todo o material do dia, voltar pra casa e passar o restante das horas se dividindo entre a leitura obrigatória e o planejamento da aula para o próximo dia.

É, não mentiram na descrição do curso quando falaram que era puxado. E aí chega o fim de semana e, além de dormir 12 horas seguidas, tem os trabalhos para fazer que deixam as pessoas tão desesperadas que fazem a gente marcar de encontrar a turma (pra quem a gente não aguenta mais olhar, diga-se de passagem) para ver se não esquecemos de colocar nada.

Mas ufa! Excepcionalmente durante esse mês, esse curso intensivo tem uma semana de “férias” no meio para estimular que os alunos conheçam mais da cidade e do resto da Hungria. Que beleza! Mas calma, tem os amiguinhos que vão precisar refazer o primeiro trabalho te pedindo ajuda, tem mais dois trabalhos (de mil palavras cada) para serem entregues na próxima semana, tem a aula de segunda para preparar e, como Murphy não dorme no ponto jamais, tem o frio, a chuva, o vento, e até ameaça de neve.

OK, estou reclamando demais, até consegui um dia de sol para passear depois de ter finalizado meus deveres acadêmicos e tempo suficiente para atualizar o blog, é ou não é para glorificar de pé? Como diria minha diva RuPaul: “Can I get an amen?”.

Mas amanhã é segunda, é dia de começar tudo de novo. É dia de tentar (geralmente em vão) pronunciar o nume dos alunos húngaros certo, de torcer pro áudio funcionar, de fazer o possível pra lembrar que tem que tirar uma cópia a mais para entregar para o tutor, e de se conformar que, mesmo quando você consegue dormir, vai ter sonho com a aula sim!

Bora então ver só mais um episódio daquela serie nova no Netflix e encher a cara com o resto de chocolate que sobrou da Páscoa, porque ainda tem mais duas semanas intensas pela frente, e puts, amanhã é segunda. Que bom. Estava sentindo falta dessa coisa chamada rotina…

 

O que tem no Laos?

Minha mãe está mostrando as últimas fotos que eu postei para o meu pai e segue o diálogo:

_ Nossa, é lindo! Onde é isso?

_ No Laos _ ela responde.

_ Não, mas em que país? _ ele continuou curioso.

_ Ué, no Laos!

_ Eu nem sabia que existia esse país! Sei lá onde fica!

Pois é, parece que a grande maioria das pessoas não sabe nem dizer se o Laos é animal, vegetal ou mineral. Eu mesmo só fui descobrir onde ficava quando estava com o mapa aberto tentando planejar uma rota de viagem que fizesse algum sentido, e lá estava ele quase esquecido entre a Tailândia e o Vietnam.

E olha, não me arrependi de ter encarado 28 horas na pior aventura de ônibus que eu já tive na vida saindo de Hanoi para chegar lá. Tem cachoeira, caverna, ponte que parece que vai cair, lagoa azul, boliche na madrugada, feirinhas de artesanato legitimas, passeio de boia no rio, monge passeando pela rua, templo, e Buda, muito Buda, Buda para dar e vender. Acho que rivalizando com os Budas, só mesmo a quantidade de brasileiros. Para um lugar que ninguém ouvi falar e muito menos sabe onde fica, ainda estou tentando entender como encontrei tantos conterrâneos naquele lugar.

Estou eu tentando apreciar o pôr do sol no templo lotado em cima da montanha com vista para o rio, e, enquanto reclamo dos turistas chineses que sismam em estragar minhas fotos, eis que aparece um mineiro. Descemos as escadas do mesmo templo conversando animadamente em português e então surge um casal de São Paulo. Estamos olhando as quinquilharias na feira de rua e trocamos umas palavras com mais um casal enquanto um grupo de quatro meninas tenta se decidir por qual echarpe comprar. Estamos fazendo cara de paisagem no bar só para usar um pouco o wifi mesmo sem consumir, e olha aí mais dois casais. Estamos quase respirado com a ajuda de aparelhos depois da subida até a caverna e pronto, outro paulista. Estamos dando um mergulho na lagoa e tcharam, uma gaúcha. Estamos fazendo nada no hostel esperando pelo horário do ônibus, e dessa vez, dois cariocas.

Mas o prêmio de melhor interação inesperada com brasileiros com certeza vai para a dupla Gabriel e Gabriel. Eu, sempre a fotógrafa, estou procurando um ângulo descente sem muitas pessoas ao fundo para registrar a minha amiga fazendo pose de sereia no meio da cachoeira. Só que as coisas estão difíceis e eu aviso para ela:

_ A foto iria ficar perfeita se aquele cara saísse dali!

E é claro que o amigo dele está bem ao meu lado, ouve isso e diz:

_ Quem? Aquele ali? Ô, Gabriel, chega pra lá pra menina aqui tirar a foto!

Pelo menos conseguimos a foto do jeito que queríamos e no fim das contas, descobrimos que no Laos, além das cachoeiras, das pontes e dos Budas, também tem muitos, mas muitos brasileiros.

A minha irmã e o paraíso

Eu abro o Facebook e a primeira coisa que aparece no meu feed é a informação de que a minha irmã (Heloá, sim, sempre ela) confirmou presença no evento “Meditação da Lua Cheia”, e com isso um sorriso involuntário se forma no meu rosto ao perceber que ela com certeza teria adorado trocar de lugar comigo nesses últimos dias de aventuras asiáticas.

Ao chegar no Camboja, minha intenção era só fazer o roteiro básico “Siem Reap para ver ruína e Phnom Penh para ver história triste” e então partir para o Vietnã. Mas sabe como é, conversa vai com a alemã na van aqui, conversa vem com o sueco no lobby do hostel ali, e de repente estou convencida de que tenho que incluir o litoral nos meus planos.

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Entre as poucas opções que eu tinha para escolher, preferi uma ilha pequena, sem badalação, que prometia ser o paraíso para aqueles que, assim como eu, curtiram o sul da Tailândia, mas acharam que seria bem melhor com menos gente. Mas aí vem a pegadinha, menos badalação = menos infraestrutura, e eu teria que lidar com isso por três dias.

Para começar, desde o início eu sabia que a energia elétrica da ilha é fornecida por geradores e estes são desligados por algumas horas após a meia noite. Parece assustador, mas na prática não foi tão ruim. Não tinha ar condicionado mesmo, a refrescância era na base de ventiladores e janelas escancaradas, mas durante a madrugada a temperatura ficava bastante agradável. Contra os mosquitos e outros seres da floresta adjacente, litros e mais litros de repelente combinados simpáticos mosquiteiros em cada cama. E quando o sol ameaçava nascer anunciando mais um dia de temperatura nas alturas, a eletricidade voltava e com ela os ventiladores voltavam a zunir com aquele barulhinho agradável.

O próximo problema nem era tão grande assim: não ter internet. No albergue mesmo, não tinha. Só consegui identificar dois estabelecimentos naquela praia que ofereciam wifi, num a comida era ruim, mas barata, e a internet nem sempre funcionava, no outro a comida era ótima, mas cara, então não interessa o quão bom era o sinal porque uma mochileira da minha laia não poderia ficar esbanjando seu rico dinheirinho. Olha aí uma oportunidade de se afastar um pouco dessa dependência que nós temos das redes sociais, de se livrar das amarras da tecnologia contemporânea! Um papo que a minha irmã adoraria estender, mas entre sucos e o pior macarrão ao pesto que eu já comi na vida, consegui sinal suficiente para avisar para a minha mãe que eu estava viva e postar uma foto no Instagram porque ninguém é de ferro.

Contudo, o terceiro desafio era com certeza o pior de todos: o banho. Não tinha água quente. Na verdade, não tinha nem chuveiro. O que havia era um banheiro tradicional com uma “banheira” onde a água fica armazenada e era preciso usar um baldinho para se banhar. Além disso, tinha também a plaquinha passivo-agressiva que lembrava aos hóspedes que “a água que usamos para o banho é a mesma que os locais usam para beber, portanto use com moderação”. Não que fosse novidade, já havia visto alguns banheiros desse tipo antes, mas foi a primeira vez em que tive que tomar banho num deles, e ainda ter que olhar a plaquinha a cada vez que eu enchia o balde não ajudava o meu estado de espírito.

Todas as vezes em que eu tomei banho naquela ilha eu imaginava Heloá gargalhando da minha situação, a final, o quanto eu não a sacaneei naquele carnaval que ela se juntou com uma galera que era a cara dos meus tempos de biologia e passou uns dias sem luz tomando banho frio? Karma sure is a b*tch…

O que importa no fim das contas é que o lugar era paradisíaco sim, e viver três dias sem internet tomando banho frio de baldinho não mata ninguém. Mas que os meus amiguinhos metidos a hippies da ilha não me ouçam, três dias foram mais do que suficientes para provar para mim mesma que esse estilo roots não tem nada a ver comigo. Aliás, festejei minha volta à civilização com um belo e longo banho quente e alguns episódios de Gilmore Girls na Netflix.

Saio desse episódio com duas informações importantes: uma ótima dica de destino de viagem para quando a minha irmã resolver se aventurar pelo Sudeste Asiático, e o nome de um resort bem arrumadinho na praia do outro lado da ilha (mas tão bonito quanto) onde eu vou me refugiar para escrever meu segundo livro depois de me tornar uma escritora best-seller aclamada pela crítica. Tenho certeza que além da internet potente que chega até a areia, chuveiros quentes não irão faltar…

As coisas que eu não fiz na Tailândia

A Tailândia é um lugar maravilhoso.Tem praia, montanha, cachoeira, templo, mesquita, museu, mercado,… coisa para fazer para todos os gostos. E graças a essa infinidade de opções, eu acabei fazendo muita coisa que dificilmente eu faria na minha “vida real”, o suficiente para a minha família viver repetindo que eu devo ter sido abduzida.

Por exemplo, apesar no meu pavor de entrar no mar a noite temendo que alguma criatura gigante das profundezas resolvesse dar um rolé e me usar de aperitivo, eu me joguei na completa escuridão em Phi Phi para poder nadar com plânctons brilhantes que me fizeram sentir a própria Pequena Sereia. E mesmo sendo a rainha do sedentarismo, eu topei fazer escalada nos paredões de rocha em Krabi (ainda que tenha ficado só nas paredinhas). Eu até comi grilos fritos, veja só!

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Mas ainda assim, vira e mexe aparece alguém perguntando se eu fiz ou vou fazer alguma coisa que todo mundo associa à Tailândia, mas que honestamente não está na minha lista por razões diversas.

Não, eu não vou fazer uma tatuagem de bambu com os monges. Para começar, que na versão séria dessa parada você não escolhe o desenho nem o local da tattoo. É o monge que decide o que e aonde vai ser e tem todo um significado espiritual que não faz o menor sentido pra mim, ateia até o último fio de cabelo. Além disso, não combina nem um pouco com o estilo das minhas outras tattoos.

Não, eu não visitei a vila das “mulheres-girafas”, porque depois de muita pesquisa fiquei sabendo que elas são na verdade de um povo refugiado vindo de Myanmar que recebe um tratamento no mínimo duvidoso do governo tailandês. Ouvi relatos de pessoas que se sentiram visitando um “zoológico de gente”, e eu não tenho o menor interesse em contribuir para isso. Ah, e eu também não fui assistir a um show de ping pong. Por mais que eu ache que todo mundo deve aproveitar o talento que tem, acredite, aquelas mulheres não estão se divertindo.

Não, eu não fui no templo dos tigres (aliás, em nenhum deles, porque tem alguns espalhados por aqui), porque eu não preciso de uma foto abraçada com um felino de mais de 100 quilos que precisa estar obviamente dopado para não pular na minha jugular. E para continuar no tópico animais, não, eu não andei em cima de um elefante que precisou ser torturado quando filhote para aceitar esse tipo de interação com humanos.

Mas em compensação, depois de muita pesquisa à procura de um lugar ético, passei o dia em um santuário que resgata elefantes que antes eram usados para diferentes tipos de trabalho, e lá eu pude alimentá-los, tomar banho no rio com eles e ver como eles vivem “quase” em liberdade. Foi simplesmente maravilhoso, e a prova disso é a minha cara de pateta em todas as fotos que eu tirei aquele dia.

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Mais de dois meses já se passaram desde que eu cheguei na Tailândia e não, eu não fiz tudo que eu poderia fazer. Não por falta de tempo, mas porque eu escolhi fazer coisas que não só me renderiam momentos de diversão e fotos com muitas curtidas nas redes sociais, mas coisas que não causassem um impacto negativo na vida dos envolvidos ou que contribuíssem para a perpetuação de situações de injustiça. E depois de gastar todo o meu arsenal de palavras bonitas, posso dizer que não me arrependo, e vou continuar a não fazer várias coisas pelo mundo.